Lula e Flávio deixam corrupção em segundo plano e travam guerra por obras, salário mínimo e legado dos governos

Política Real
Colunista
5 leitura mínima

Último debate presidencial da Globo teve menos acusações sobre escândalos financeiros e mais disputas sobre realizações administrativas. Mas números de obras paradas e promessas de infraestrutura revelaram um problema: os candidatos apresentaram retratos diferentes do mesmo Brasil.

O último debate presidencial de 2026 mudou de direção. Depois de um primeiro confronto marcado por acusações sobre corrupção, familiares e patrimônio, Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) dedicaram boa parte do encontro desta sexta-feira (23), na TV Globo, à comparação entre os resultados dos governos petistas e da administração de Jair Bolsonaro.

A mudança não eliminou os ataques pessoais, mas colocou infraestrutura, salário mínimo, saneamento, exportações e desenvolvimento regional no centro da discussão.

Logo na abertura, Flávio questionou Lula sobre a quantidade de obras públicas paralisadas no país. O senador afirmou que o Tribunal de Contas da União havia identificado mais de 11,5 mil empreendimentos sem conclusão e acusou o atual governo de não conseguir entregar os projetos anunciados.

Lula rebateu dizendo que recebeu aproximadamente 6 mil obras paradas e que seu governo ampliou os investimentos em infraestrutura.

Os dois citaram números oficiais. O problema está na maneira como foram utilizados.

A marca superior a 11 mil obras mencionada por Flávio corresponde a um levantamento do TCU sobre empreendimentos financiados com recursos federais em período anterior, incluindo projetos iniciados sob diferentes administrações.

Já um levantamento mais recente, consolidado em abril de 2026, registrava cerca de 4,2 mil obras paralisadas, conforme o painel de acompanhamento do tribunal.

Isso não elimina as dificuldades de execução de obras públicas, mas impede atribuir todo o estoque histórico de projetos interrompidos exclusivamente ao governo atual.

A resposta de Lula também simplificou os números. Segundo os registros do TCU, havia aproximadamente 8,6 mil obras paralisadas em agosto de 2022, acima das 6 mil mencionadas pelo presidente.

O confronto mostra como informações verdadeiras podem produzir interpretações equivocadas quando períodos e critérios diferentes são misturados.

Flávio prometeu expandir a malha ferroviária brasileira e criticou a falta de integração dos sistemas de transporte.

Lula apresentou como resposta investimentos em rodovias, portos, ferrovias e hidrovias, além de citar a Transnordestina como um projeto importante para o desenvolvimento regional.

No Nordeste, a disputa chegou à transposição do Rio São Francisco. Flávio atribuiu a Jair Bolsonaro a conclusão do empreendimento, enquanto Lula destacou que a obra começou em seus governos anteriores.

A transposição atravessou diferentes administrações e teve trechos inaugurados em momentos distintos. Sua execução não foi integralmente concluída no governo Bolsonaro, e etapas complementares ainda estavam em andamento posteriormente.

O salário mínimo também se tornou objeto de disputa.

Lula defendeu a política de valorização real do piso nacional e afirmou que os governos petistas ampliaram o poder de compra dos trabalhadores.

Flávio rebateu argumentando que aumentos salariais perdem parte de seus efeitos quando alimentos, serviços e impostos comprometem o orçamento doméstico.

A diferença entre reajuste nominal e ganho real é essencial. Para que o salário mínimo aumente efetivamente o poder de compra, sua elevação precisa superar a inflação acumulada no período.

A discussão se estendeu ao agronegócio, com Lula citando novos mercados externos abertos para produtos brasileiros e Flávio criticando as condições de crédito e financiamento rural.

O encontro terminou sem um confronto detalhado sobre as fontes de financiamento de todos os investimentos prometidos.

A eleição de domingo colocará diante dos brasileiros projetos econômicos e administrativos diferentes. Mas o debate também revelou que a avaliação das realizações de um governo exige muito mais do que reivindicar a autoria de uma obra ou apresentar um número isolado.

Projetos iniciados, recursos contratados, obras concluídas e benefícios efetivamente entregues são etapas distintas da administração pública.

A questão que permanece depois do último debate é quais resultados concretos poderão ser cobrados do próximo presidente, independentemente de quem tenha anunciado, iniciado ou inaugurado cada projeto.

Compartilhe este artigo