A articulação de Alckmin: como herdeiros de FHC e Covas se uniram à campanha vitoriosa de Lula

Política Real
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Vice-presidente mobilizou antigos tucanos, reuniu prefeitos de partidos adversários e percorreu o interior paulista na reta final da eleição. Na noite da vitória, recebeu de Lula o reconhecimento por sua participação na campanha.

Antes de discursar sobre sua reeleição, na noite deste domingo (25), Luiz Inácio Lula da Silva fez questão de passar a palavra a Geraldo Alckmin. O gesto não foi apenas protocolar. Diante dos apoiadores, o presidente afirmou que o vice tinha muito a ver com a vitória conquistada sobre Flávio Bolsonaro.

A declaração coroou uma articulação política que ganhou intensidade nas três semanas entre os turnos. Enquanto Lula concentrava sua agenda em mobilizações populares e confrontos com o adversário, Alckmin assumiu uma frente complementar: dialogar com setores do centro político, lideranças municipais, empresários e personagens historicamente associados ao PSDB.

O movimento produziu uma das imagens mais significativas da campanha: Alckmin ao lado de Beatriz Cardoso, filha do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso; Mario Covas Neto, o Zuzinha, filho do ex-governador Mário Covas; e Maria Estella Gregori, filha do ex-ministro da Justiça José Gregori.

Todos anunciaram apoio à reeleição de Lula.

A reaproximação de antigos adversários

A presença desses nomes carregava um significado histórico.

Fernando Henrique Cardoso e Lula protagonizaram a rivalidade que organizou boa parte da política brasileira durante décadas. Mário Covas foi um dos fundadores do PSDB e referência da social-democracia paulista. Alckmin, por sua vez, foi vice-governador de Covas, assumiu o governo após sua morte e chegou a enfrentar Lula na eleição presidencial de 2006.

Vinte anos depois, o antigo adversário conduziu uma articulação para aproximar famílias e lideranças tucanas da candidatura petista.

Em vídeo divulgado em 16 de outubro, Beatriz Cardoso justificou seu voto em Lula pela defesa da democracia e pelo futuro das próximas gerações. Zuzinha dirigiu sua mensagem especialmente aos antigos eleitores do PSDB, que chamou de tucanos de raiz.

O apoio de Covas Neto tinha antecedentes. Em setembro, ele já havia manifestado sua escolha em um encontro com Lula e Alckmin, recordando que seu pai apoiara o petista no segundo turno de 1989, contra Fernando Collor.

No dia 17, a aproximação ganhou outra dimensão. Uma carta de apoio à reeleição reuniu 15 personalidades, entre elas Beatriz Cardoso, os ex-ministros Miguel Reale Júnior e José Carlos Dias, o ex-senador Aloysio Nunes e o economista Eduardo Giannetti.

O documento apresentou a defesa da estabilidade institucional como justificativa para a escolha eleitoral. Não se tratava de uma adesão formal do PSDB, mas de manifestações individuais de pessoas associadas à sua história e a diferentes correntes políticas.

O vice que percorreu o território adversário

A articulação não ficou restrita aos símbolos.

Em 16 de outubro, Alckmin reuniu 58 prefeitos de dez partidos em Hortolândia, no interior paulista. Entre os participantes estavam gestores filiados ao PL, PP, União Brasil, Republicanos e MDB.

A presença no encontro não significava necessariamente uma declaração de voto em Lula. Mas demonstrava a capacidade do vice-presidente de estabelecer diálogo com lideranças que, em muitos casos, pertenciam à base de sustentação de seus adversários.

Alckmin apresentou uma mensagem voltada à administração municipal: um novo governo Lula manteria relações institucionais com prefeitos independentemente de suas filiações partidárias.

A estratégia aproveitava sua própria trajetória. Ex-prefeito de Pindamonhangaba e governador de São Paulo por quatro mandatos, Alckmin conserva relações construídas durante décadas com lideranças regionais.

Na semana decisiva, percorreu diferentes localidades.

Em Curitiba, no dia 20, encontrou representantes do agronegócio, empresários e o arcebispo Dom José Antônio Peruzzo. Em Campinas, no dia seguinte, participou de uma mobilização com Fernando Haddad e defendeu propostas relacionadas à indústria, aos microempreendedores e ao desenvolvimento regional.

No dia 22, esteve em São Carlos, onde visitou a Santa Casa e participou de atividades políticas.

Também esteve em mobilizações sindicais e em encontros com representantes religiosos, buscando estabelecer canais de diálogo para além da base tradicional do PT.

A ponte com o empresariado

A participação de Alckmin tinha outra dimensão: sua relação com setores produtivos.

Durante o terceiro mandato de Lula, ele acumulou a Vice-Presidência com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, participando de negociações comerciais e de discussões sobre política industrial.

Em setembro, durante um encontro com empresários, defendeu o compromisso com o equilíbrio fiscal e a busca de superávit nas contas públicas.

A mensagem respondia a preocupações presentes em segmentos econômicos sobre o financiamento dos gastos governamentais.

Sua trajetória como governador e sua atuação na área econômica ofereciam à campanha um interlocutor com experiência administrativa diferente daquela associada ao núcleo histórico do PT.

Isso não significava unanimidade no empresariado, nem eliminava divergências sobre política fiscal. Representava, porém, a existência de um canal para negociações com setores que mantinham reservas em relação ao presidente.

O resultado das urnas e os limites da análise

São Paulo ajuda a compreender a dimensão e os limites dessa estratégia.

No primeiro turno, Lula havia recebido 38,20% dos votos válidos no estado. No segundo, alcançou 46,15%. Na capital, terminou com 55,5%, ampliando a votação obtida na primeira etapa.

Apesar do crescimento, Flávio Bolsonaro venceu no conjunto do território paulista, com 53,85% dos votos válidos.

Os números demonstram uma ampliação da participação eleitoral de Lula entre os turnos, mas não permitem medir isoladamente o efeito das ações de Alckmin.

A mudança também ocorreu em um contexto de mobilização partidária, maior comparecimento às urnas e concentração dos votos em apenas duas candidaturas.

A contribuição do vice está documentada nas agendas, nas articulações e nas manifestações públicas dos participantes. Sua influência eleitoral exata, entretanto, não pode ser determinada apenas pelos resultados agregados.

O reconhecimento na noite da vitória

A parceria entre Lula e Alckmin começou em 2022, quando dois antigos adversários decidiram formar uma chapa presidencial. Quatro anos depois, a aliança foi renovada e submetida a uma disputa particularmente competitiva.

Ao celebrar a reeleição, Alckmin agradeceu aos eleitores e afirmou que Lula havia salvado a democracia brasileira pela segunda vez — uma interpretação política expressa pelo vice-presidente.

Lula, por sua vez, elogiou a lealdade do companheiro de chapa e reconheceu sua contribuição para a campanha.

A imagem final sintetiza uma transformação da política brasileira: o antigo candidato presidencial do PSDB, que enfrentou Lula em 2006, agora celebra ao seu lado uma segunda vitória consecutiva.

Alckmin não construiu sozinho a reviravolta eleitoral. Mas sua atuação demonstrou como alianças políticas podem atravessar rivalidades históricas e reunir personagens que estiveram em campos opostos durante décadas.

A vitória pertence à chapa escolhida pelos eleitores. A articulação que levou antigos tucanos a participar da campanha petista é uma das histórias políticas que ajudam a compreender como ela foi construída.

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