Parecer enviado ao STF afirma que não existem elementos suficientes para abertura de investigação criminal contra o ministro. Manifestação amplia a discussão institucional sobre os limites das apurações envolvendo magistrados da Corte.
A Procuradoria-Geral da República (PGR) posicionou-se contra o pedido do ministro Alexandre de Moraes para investigar André Mendonça, também integrante do Supremo Tribunal Federal (STF), por suspeita de abuso de autoridade. O parecer foi encaminhado ao presidente da Corte, Edson Fachin, e tornou-se público nesta segunda-feira (19), em meio aos desdobramentos do caso Banco Master.
A manifestação foi assinada pelo procurador-geral da República, Paulo Gonet, e representa um novo capítulo das divergências surgidas dentro do Supremo após a divulgação de mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador da instituição financeira.
Moraes havia solicitado, em 3 de setembro, a abertura de uma investigação contra Mendonça, questionando sua atuação na condução de procedimentos relacionados ao Banco Master e às apurações sobre fraudes no INSS.
O ministro alegou a existência de indícios de que Mendonça teria tentado direcionar investigações contra ele e sua esposa, a advogada Viviane Barci de Moraes, cujo escritório manteve relações profissionais ligadas ao banco.
A representação foi encaminhada a Fachin, que determinou a abertura de um procedimento específico para analisar o assunto e solicitou manifestação da PGR.
Agora, o Ministério Público Federal afirma que os elementos apresentados não são suficientes para justificar uma investigação criminal.
Segundo a Procuradoria, os documentos de inteligência da Polícia Federal mencionados na representação não possuem, isoladamente, valor probatório capaz de demonstrar a prática de abuso de autoridade.
O parecer também sustenta que os fatos narrados não demonstram, nos termos apresentados, a existência de conduta criminal ou improbidade administrativa atribuível a Mendonça.
Outro ponto importante envolve a competência para apurar eventual crime de responsabilidade cometido por um ministro do Supremo.
A PGR argumenta que essa modalidade de responsabilização possui regras constitucionais próprias e pode ser analisada pelo Senado Federal, responsável pelos procedimentos políticos de afastamento de ministros da Corte.
Isso não significa que magistrados estejam imunes a investigações criminais. Significa que existem procedimentos e exigências específicas quando uma denúncia envolve integrantes do próprio tribunal.
O parecer da PGR também não representa uma decisão definitiva sobre o pedido apresentado por Moraes.
A avaliação dos próximos passos caberá ao Supremo, considerando as regras institucionais aplicáveis.
O conflito surgiu no contexto de uma série de revelações sobre relações mantidas por Daniel Vorcaro com autoridades, empresários e profissionais de diferentes setores.
As mensagens divulgadas pela imprensa provocaram questionamentos sobre contatos entre o ex-banqueiro e integrantes do Judiciário, além de pedidos de esclarecimento sobre eventuais conflitos de interesses.
Mendonça atua como relator de investigações relacionadas ao Banco Master e participou de decisões sobre o compartilhamento e a divulgação de informações obtidas durante as operações policiais.
Moraes, por sua vez, tornou-se personagem de parte das controvérsias após seu nome aparecer em mensagens atribuídas a Vorcaro.
Os episódios exigem distinguir a existência de contatos ou referências em documentos da comprovação de condutas ilícitas.
A simples menção a um magistrado em conversas privadas não constitui automaticamente prova de favorecimento judicial ou de participação em crimes.
Da mesma forma, divergências sobre a condução de investigações não representam, por si só, abuso de autoridade.
A controvérsia tornou-se particularmente sensível porque envolve dois ministros do Supremo em um caso que reúne investigações financeiras, denúncias de vazamentos e suspeitas sobre relações institucionais.
A manifestação da PGR não encerra as apurações relacionadas ao Banco Master, nem produz absolvição geral sobre todos os episódios discutidos publicamente.
Seu alcance é específico: o pedido de Moraes para investigar criminalmente Mendonça, nos termos apresentados, não recebeu apoio da Procuradoria.
A decisão final sobre o encaminhamento do procedimento dependerá da avaliação da Corte.
Enquanto isso, as investigações sobre o Banco Master continuam e a discussão sobre transparência, sigilo e limites de atuação dos ministros permanece entre os assuntos mais relevantes do Judiciário brasileiro.