Brasil já usa mais inteligência artificial nos pequenos negócios que os EUA, mas o desafio agora é transformar tecnologia em lucro

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Pesquisa do Sebrae revela que 52% dos pequenos empreendedores brasileiros já utilizam IA, contra 21% nos Estados Unidos. Levantamentos internacionais, porém, mostram que aumentar a produtividade não significa necessariamente ganhar mais dinheiro.

O empreendedor brasileiro está adotando inteligência artificial em um ritmo que chama a atenção do mercado internacional. Uma pesquisa do Sebrae revela que 52% dos donos de pequenos negócios no país utilizaram ferramentas de IA nas duas semanas anteriores ao levantamento. Nos Estados Unidos, uma pesquisa equivalente do Census Bureau registrou 21%.

A diferença é expressiva e mostra como a tecnologia deixou de ser uma ferramenta exclusiva das grandes corporações. Pequenas lojas, prestadores de serviços, profissionais autônomos e empresas familiares já utilizam sistemas inteligentes para produzir conteúdo, atender clientes, organizar informações e executar tarefas administrativas.

Mas existe uma questão que começa a ganhar importância no mundo empresarial: usar inteligência artificial significa necessariamente ter um negócio mais lucrativo?

A resposta, segundo estudos internacionais, está longe de ser simples.

Uma pesquisa global da consultoria McKinsey, divulgada em agosto, mostra que 80% dos entrevistados perceberam ganhos individuais de produtividade com a utilização de IA. Entretanto, apenas 37% relataram algum impacto positivo da tecnologia sobre o resultado operacional de suas organizações.

Os números expõem uma diferença importante entre trabalhar mais rápido e efetivamente ganhar mais dinheiro.

Uma empresa pode utilizar inteligência artificial para produzir dezenas de publicações, responder mensagens automaticamente ou elaborar relatórios em poucos segundos. Isso não significa, necessariamente, conquistar mais clientes, aumentar a margem de lucro ou melhorar a qualidade de seus produtos.

O problema aparece quando a tecnologia é incorporada sem mudanças reais na maneira como o negócio funciona.

Outro levantamento, realizado pela Gartner com organizações de faturamento anual igual ou superior a US$ 50 milhões, mostrou que apenas 22% haviam conseguido expandir a utilização de inteligência artificial de maneira bem-sucedida entre diferentes áreas ou adotar uma abordagem centrada na tecnologia.

Apesar disso, 85% dos líderes funcionais entrevistados pretendiam ampliar os investimentos em IA durante 2026.

O resultado revela um paradoxo: as empresas estão dispostas a gastar mais com uma tecnologia cujos benefícios financeiros ainda não conseguem medir completamente.

Para os pequenos empreendedores, a discussão é especialmente relevante.

Ao contrário de grandes companhias, que possuem departamentos especializados e orçamentos elevados, pequenos negócios precisam justificar cada despesa. Assinaturas de ferramentas, sistemas de automação e serviços digitais podem parecer baratos individualmente, mas representam custos recorrentes.

Por outro lado, quando utilizados corretamente, esses recursos podem permitir que estruturas pequenas executem atividades que antes exigiam equipes maiores ou serviços terceirizados.

É o caso de uma loja que automatiza o acompanhamento de pedidos, de um escritório que reduz o tempo gasto na organização de documentos ou de uma empresa de serviços que utiliza IA para qualificar o primeiro atendimento ao cliente.

O benefício real não está simplesmente em produzir mais, mas em reduzir desperdícios, melhorar processos e liberar pessoas para atividades que gerem valor.

A pesquisa do Sebrae também derruba uma percepção comum sobre o tema. Entre os pequenos negócios brasileiros que utilizam inteligência artificial, 90% afirmaram não ter alterado o número de funcionários nos seis meses anteriores por causa da tecnologia.

Apenas 5% relataram redução de postos de trabalho, enquanto 3% registraram aumento de contratações relacionado à IA.

Isso mostra que, ao menos nesse segmento e período pesquisado, a tecnologia foi utilizada predominantemente para aprimorar atividades, e não para substituir trabalhadores.

Outro dado chama a atenção: 46% dos pequenos negócios brasileiros precisaram criar novos fluxos de trabalho para incorporar inteligência artificial. Nos Estados Unidos, o percentual registrado na pesquisa equivalente foi de 15%, embora diferenças metodológicas recomendem cautela nas comparações internacionais.

Essa disposição para modificar processos pode ser importante, mas exige planejamento.

Automatizar um atendimento ruim não melhora necessariamente a experiência do consumidor. Produzir mais publicidade não garante aumento de vendas. E utilizar inteligência artificial sem supervisão pode gerar erros, exposição de informações confidenciais e decisões equivocadas.

O avanço da tecnologia também está modificando o mercado de software. Segundo a McKinsey, 32% dos entrevistados afirmaram que suas organizações deixaram de comprar pelo menos um produto ou recurso digital porque conseguiram desenvolver internamente uma solução com ferramentas de programação baseadas em IA.

A mudança pode abrir oportunidades para empresas menores, mas também pressiona fornecedores tradicionais de tecnologia a demonstrar o valor de seus produtos.

A questão será debatida no ABES Summit 2026, marcado para 27 de outubro, em São Paulo. O encontro, organizado pela Associação Brasileira das Empresas de Software em parceria com a Fiesp, terá como foco a criação de valor e a competitividade empresarial na era da inteligência artificial.

Os dados apontam para uma nova etapa da transformação digital: a adoção da IA está avançando, mas seus resultados financeiros ainda são desiguais.

Para quem empreende, acompanhar essa mudança deixou de ser apenas uma questão tecnológica. Tornou-se uma decisão de gestão, envolvendo custos, produtividade, qualidade e relacionamento com clientes.

A próxima pergunta do mercado não será apenas quantas empresas utilizam inteligência artificial, mas quantas conseguem demonstrar que ela melhorou seus resultados.

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