Se São Paulo vota em Lula, por que a esquerda perde a prefeitura?

Política Real
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Com quase 3,9 milhões de votos, Lula ampliou sua vitória na maior cidade do país. Dois anos antes, Ricardo Nunes derrotou Boulos com apoio do bolsonarismo. O contraste entre as eleições expõe os limites das alianças, da mobilização e da capacidade de transformar força presidencial em poder municipal.

São Paulo produziu um dos resultados mais reveladores da eleição presidencial de 2026. Enquanto Flávio Bolsonaro venceu no estado, Luiz Inácio Lula da Silva conquistou 55,50% dos votos válidos na capital, abrindo uma vantagem superior a 766 mil votos.

Foram 3.864.354 votos para Lula, contra 3.097.923 para Flávio. O presidente já havia terminado o primeiro turno à frente, com 46,58%, mas ampliou sua votação em mais de 800 mil votos nas três semanas seguintes.

A vitória levanta uma questão que deverá acompanhar a política paulistana até 2028: por que uma cidade capaz de entregar uma votação tão expressiva a Lula elegeu, apenas dois anos antes, um prefeito sustentado por uma ampla coalizão de centro-direita?

A resposta envolve algo mais complexo do que a simples divisão entre esquerda e direita. Ela passa pela fragmentação das candidaturas, pela força das administrações locais e por uma característica frequentemente ignorada nas análises eleitorais: o eleitor não necessariamente utiliza os mesmos critérios para escolher presidente e prefeito.

O contraste de 2024

Ricardo Nunes chegou à Prefeitura em 2021, depois da morte de Bruno Covas, de quem era vice. Ao longo do mandato, aproximou-se politicamente do governador Tarcísio de Freitas e construiu uma aliança com o PL de Jair Bolsonaro.

Em 2024, aceitou como vice o coronel Mello Araújo, indicado por Bolsonaro, e reuniu uma coligação de partidos que incluía MDB, PL, PP, PSD, Republicanos e União Brasil.

A eleição terminou com uma vitória expressiva: Nunes recebeu 59,35% dos votos válidos, contra 40,65% de Guilherme Boulos.

O primeiro turno, entretanto, apresentou uma cidade muito mais dividida.

Nunes recebeu 29,48%; Boulos, 29,07%; Pablo Marçal, 28,14%; e Tabata Amaral, 9,91%.

A votação mostra a existência de diferentes candidaturas competindo por espaços políticos próximos ou parcialmente sobrepostos.

Boulos já contava com o apoio do PT e de Lula. Tabata, representante de uma centro-esquerda distinta, concorria pelo PSB. No segundo turno, declarou apoio a Boulos, mas essa aproximação não impediu a vitória de Nunes.

Portanto, a fragmentação ajuda a explicar a competição inicial, mas não é suficiente para explicar o resultado final.

A própria direita enfrentou uma divisão significativa no primeiro turno, especialmente entre Nunes e Marçal.

Uma cidade, diferentes escolhas

A dimensão da votação de Lula em 2026 é inegável.

Ele venceu em 43 das 57 zonas eleitorais da capital, avançando em regiões que haviam favorecido Flávio Bolsonaro no primeiro turno.

Entre elas estavam Sapopemba, Cangaíba, Ponte Rasa, Pirituba e Casa Verde.

O desempenho também confirmou a importância das regiões periféricas da zona sul e da zona leste para sua votação.

Entretanto, vencer uma eleição presidencial não significa possuir automaticamente a maioria dos votos disponíveis para qualquer candidato municipal do mesmo campo político.

Em 2024, aproximadamente 6,38 milhões de eleitores compareceram ao segundo turno para prefeito. Em 2026, o comparecimento na votação presidencial ultrapassou 7,28 milhões.

Além da diferença de participação, mudaram os candidatos, os assuntos debatidos e o contexto político.

A comparação demonstra que existe uma base eleitoral expressiva disposta a votar em Lula, mas não prova que todos esses eleitores se identifiquem permanentemente com a esquerda ou apoiariam qualquer candidatura vinculada ao presidente.

Esse é um dos limites da transferência de votos entre eleições.

O fenômeno do Exército do Lula

A campanha presidencial também apresentou uma experiência relevante de mobilização digital.

O canal de WhatsApp denominado Exército do Lula, administrado pelo deputado André Janones, reuniu milhões de participantes e passou a distribuir orientações e atividades coordenadas durante o segundo turno.

Às vésperas da votação, o canal já reunia aproximadamente 10,8 milhões de seguidores, aproximando-se da marca de 11 milhões. Somente em 23 de outubro, havia ultrapassado 10 milhões, depois de registrar pouco mais de quatro milhões no dia 13. Seu funcionamento também se tornou objeto de disputas e decisões da Justiça Eleitoral relacionadas às regras de propaganda e à circulação de conteúdos apontados como desinformativos.

A iniciativa demonstrou a capacidade de reunir uma audiência numerosa em torno de atividades políticas organizadas.

Mas sua influência específica sobre o resultado eleitoral ainda não pode ser quantificada.

Também não existem dados públicos suficientes para determinar quantos participantes eram moradores da capital paulista ou em que medida suas atividades modificaram preferências individuais.

O episódio permite discutir uma transformação mais ampla: as campanhas passaram a contar não apenas com militantes presentes em ruas e comícios, mas também com redes digitais capazes de manter atividades durante todo o período eleitoral.

Essa capacidade organizativa é diferente, porém, da existência de uma estrutura partidária municipal consolidada.

A disputa de 2028 será outra

Ricardo Nunes não poderá disputar um terceiro mandato consecutivo. Por isso, a eleição municipal de 2028 envolverá necessariamente uma sucessão.

O prefeito já possui aliados mencionados nas discussões sobre seu futuro político, entre eles o deputado federal eleito Sidney Cruz, ex-secretário municipal de Habitação.

O eventual candidato apoiado por Nunes poderá contar com a estrutura política e as alianças construídas durante sua administração. Mas sua aceitação entre os eleitores não será automaticamente igual à do prefeito.

O mesmo raciocínio vale para a esquerda.

A votação de Lula representa um dado relevante sobre as preferências presidenciais da capital, mas o resultado municipal dependerá da avaliação da prefeitura, das candidaturas apresentadas, dos programas de governo e das circunstâncias políticas de 2028.

A grande questão não é apenas se os partidos de esquerda conseguirão chegar unidos à eleição. É compreender por que parte dos eleitores escolhe Lula para presidente, mas não escolheu Boulos para prefeito.

A resposta pode estar em avaliações diferentes sobre experiência administrativa, segurança pública, serviços municipais, prioridades urbanas e perfis pessoais.

O recado que as urnas deixam

São Paulo não pode ser descrita simplesmente como uma cidade de direita. Tampouco os 55,50% de Lula autorizam classificá-la como uma cidade majoritariamente de esquerda em todas as disputas.

O que os números demonstram é a existência de um eleitorado amplo e politicamente heterogêneo, capaz de produzir resultados diferentes conforme o cargo e as alternativas disponíveis.

Em 2024, esse eleitorado reelegeu Ricardo Nunes. Em 2026, deu a Lula sua maior vantagem absoluta entre os municípios brasileiros.

A mobilização digital, as alianças partidárias e a participação dos eleitores serão componentes importantes para compreender as eleições futuras. Nenhum deles, isoladamente, determina um resultado.

O paradoxo político da maior cidade brasileira permanece: o mesmo município que reelegeu um prefeito apoiado pelo bolsonarismo acaba de oferecer uma vitória expressiva ao principal adversário nacional desse campo.

Em 2028, São Paulo escolherá um novo prefeito. E a pergunta deixada pelas urnas não será apenas qual força política possui mais eleitores, mas como esses eleitores avaliam projetos diferentes para administrar a cidade em que vivem.

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