Brasil possui uma das maiores reservas mundiais dos 17 elementos essenciais para motores elétricos, equipamentos militares e tecnologias avançadas. Entenda por que esses minerais se tornaram estratégicos e o que falta para o país transformar riqueza natural em desenvolvimento industrial.
O Brasil possui em seu subsolo uma riqueza capaz de participar da transformação tecnológica mundial. Ela não tem o brilho do ouro, não movimenta a economia com a mesma visibilidade do petróleo e ainda é desconhecida por grande parte da população. São as chamadas terras raras, um grupo de elementos químicos indispensáveis para setores que vão da indústria automobilística à defesa militar.
A importância desses minerais cresceu tanto que Estados Unidos, China, União Europeia e Japão passaram a tratá-los como questão de segurança econômica e nacional.
Mas, afinal, o que são terras raras?
Apesar do nome, não se trata de um único mineral nem de substâncias necessariamente escassas. O termo identifica 17 elementos químicos, incluindo neodímio, praseodímio, disprósio, térbio e lantânio.
Eles possuem propriedades magnéticas, ópticas e químicas especiais, utilizadas na fabricação de produtos de alta tecnologia.
O neodímio, por exemplo, é fundamental para produzir ímãs extremamente potentes empregados em motores de veículos elétricos, turbinas eólicas, robôs e equipamentos industriais. Outros elementos são utilizados em sistemas médicos, instrumentos eletrônicos, equipamentos aeroespaciais e tecnologias militares.
É justamente essa versatilidade que transformou as terras raras em recursos estratégicos.
A questão não é apenas fabricar celulares e automóveis. Sem acesso estável a determinados elementos, empresas podem enfrentar dificuldades para produzir componentes essenciais de aeronaves, sistemas de defesa e equipamentos de precisão.
E onde o Brasil entra nessa história?
Segundo estimativas amplamente divulgadas pelo governo brasileiro e pelo Serviço Geológico do Brasil, o país possui aproximadamente 21 milhões de toneladas de reservas de terras raras, atrás da China, com 44 milhões.
Entretanto, é importante registrar uma diferença técnica: versões atualizadas do levantamento americano de 2026 apresentam estimativa menor, de 11 milhões de toneladas para o Brasil. A divergência reflete revisões dos dados disponíveis e não altera o fato de que o país possui um dos maiores potenciais minerais do mundo.
Ter reservas, contudo, não significa ser um grande produtor.
Em 2025, o Brasil extraiu aproximadamente 2 mil toneladas de terras raras, segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos. A China produziu cerca de 270 mil toneladas no mesmo período.
A diferença é enorme.
E o maior domínio chinês aparece em outra etapa: o processamento industrial.
Segundo a Agência Internacional de Energia, a China concentrava aproximadamente 91% da produção refinada de terras raras utilizadas em ímãs em 2024 e 94% da fabricação mundial dos principais ímãs permanentes.
Isso significa que o poder econômico não está somente em retirar minerais da terra, mas em separar os elementos, refiná-los e transformá-los em componentes industriais.
É justamente nessa etapa que muitos países dependem da China.
O interesse americano pelo Brasil surge dessa necessidade de diversificar fornecedores e reduzir os riscos de interrupções no abastecimento.
Washington considera esses materiais essenciais para indústrias estratégicas e para a segurança de suas cadeias produtivas. O fortalecimento da mineração brasileira poderia oferecer uma fonte adicional de suprimento fora da estrutura dominada por Pequim.
A disputa ganhou força depois que a China passou a impor controles sobre a exportação de determinados elementos e tecnologias de processamento.
Essas restrições demonstraram como decisões comerciais de um único país podem afetar fábricas em diferentes continentes.
No Brasil, depósitos e projetos de exploração estão distribuídos por estados como Goiás, Minas Gerais, Amazonas e Bahia. A operação da Serra Verde, em Goiás, representa uma iniciativa importante de produção nacional.
O governo brasileiro também iniciou estudos para uma Estratégia Nacional de Terras Raras, buscando ampliar pesquisa mineral, investimentos, processamento e desenvolvimento tecnológico.
Mas existe um risco conhecido na história econômica brasileira: exportar matérias-primas de alto potencial estratégico e importar, posteriormente, produtos industrializados de maior valor.
Uma tonelada de material mineral concentrado não possui o mesmo valor econômico de componentes avançados fabricados a partir dos elementos separados e refinados.
Construir essa cadeia industrial exige tecnologia, energia, infraestrutura, profissionais especializados e investimentos de longo prazo.
Também exige cuidados ambientais. A mineração e o processamento podem consumir água e gerar resíduos que precisam ser tratados adequadamente. Alguns depósitos estão associados a materiais naturalmente radioativos, exigindo controles específicos.
Portanto, desenvolver o setor não significa simplesmente liberar novas minas.
O desafio brasileiro será combinar exploração responsável, fiscalização, pesquisa tecnológica e capacidade industrial.
A discussão entrou na eleição presidencial porque envolve uma escolha estratégica sobre o futuro econômico do país.
O Brasil poderá ampliar suas exportações minerais, atrair investimentos estrangeiros e participar de cadeias tecnológicas internacionais. Mas o valor agregado dessas atividades dependerá de quanto do processamento e da fabricação conseguirá realizar em território nacional.
As terras raras ajudam a explicar por que a disputa entre Estados Unidos e China também interessa diretamente aos brasileiros.
Em uma economia movida por inteligência artificial, eletrificação e tecnologias avançadas, controlar o acesso a materiais estratégicos passou a representar uma vantagem econômica e geopolítica.
O Brasil tem potencial para participar desse mercado. Transformá-lo em empregos qualificados, inovação e indústria nacional será um desafio muito maior do que simplesmente possuir grandes reservas minerais.