Conflito no Oriente Médio mantém o barril em patamar elevado e pode encarecer combustível, transporte, alimentos e viagens. Brasil produz muito petróleo, mas não está isolado da alta internacional.
A guerra acontece a milhares de quilômetros do Brasil. Mas ela pode chegar muito mais perto do brasileiro do que parece: ao posto de gasolina, ao supermercado, à passagem aérea e, no limite, até à prestação de um financiamento.
Nesta terça-feira, 29 de setembro, o petróleo Brent, principal referência internacional, era negociado pouco acima de US$ 103 por barril. Apesar da queda registrada no dia, o preço acumulava alta de aproximadamente 14% apenas em setembro. O mercado continua pressionado pelo conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã e pelo risco de novas interrupções no fornecimento de petróleo do Oriente Médio.
E é justamente aí que começa uma reação em cadeia capaz de terminar no bolso do brasileiro.
Por que uma guerra com o Irã mexe tanto com o petróleo?
Para entender, é preciso olhar para um pequeno pedaço do mapa chamado Estreito de Hormuz.
É uma passagem marítima entre o Irã e Omã por onde circula uma quantidade gigantesca do petróleo produzido no Golfo Pérsico.
Nos dados mais recentes consolidados, aproximadamente 20,9 milhões de barris de petróleo e derivados passavam por Hormuz todos os dias, volume equivalente a cerca de 20% do consumo mundial de petróleo e líquidos derivados. As rotas alternativas existentes conseguem substituir apenas uma parte desse fluxo.
Imagine uma avenida por onde passa uma em cada cinco cargas essenciais de uma cidade. Se houver risco de essa avenida fechar, você não precisa esperar o bloqueio acontecer para os preços subirem.
É exatamente o que ocorre no mercado de petróleo.
O preço incorpora o medo de que refinarias sejam atingidas, navios deixem de circular, seguradoras cobrem mais caro, transportadores procurem rotas alternativas ou parte da produção mundial simplesmente não chegue ao destino.
Mesmo quando o petróleo continua circulando, transportá-lo pode ficar mais complicado e mais caro.
“Mas o Brasil não produz petróleo?”
Produz. E muito.
Em 2025, o Brasil produziu, em média, cerca de 3,8 milhões de barris de petróleo por dia e teve exportações líquidas próximas de 1,7 milhão de barris diários.
Isso significa que petróleo caro também pode trazer benefícios para o país.
As empresas que exportam recebem mais. Estados e municípios produtores podem arrecadar mais royalties. A entrada de dólares das exportações pode melhorar as contas externas.
Só que existe uma diferença importante entre produzir petróleo e ter todos os combustíveis necessários para abastecer o país.
O Brasil exporta grandes volumes de petróleo bruto, mas ainda compra derivados no exterior. Em 2025, o país continuou sendo importador líquido de derivados de petróleo.
É por isso que a frase “o Brasil produz petróleo, então o preço internacional não deveria importar” não conta toda a história.
Importa — e bastante.
O primeiro impacto aparece no diesel
Para a vida cotidiana, talvez o combustível mais importante nem seja a gasolina.
É o diesel.
Grande parte das mercadorias consumidas pelos brasileiros viaja de caminhão. Arroz, feijão, carne, leite, medicamentos, roupas, material de construção e produtos industriais dependem, em algum momento, do transporte rodoviário.
Quando o diesel sobe, o custo do frete tende a subir.
Quando o frete sobe, empresas tentam repassar parte desse custo.
E aí o petróleo pode aparecer onde o consumidor menos espera: na prateleira do supermercado.
É esse fenômeno que economistas chamam de efeito indireto ou de “segunda ordem”.
O combustível aumenta. Transportar fica mais caro. Produzir fica mais caro. Distribuir fica mais caro. E parte desse aumento se espalha pela economia.
Isso significa que a gasolina vai subir amanhã?
Não necessariamente.
O preço internacional do petróleo não é transferido automaticamente, de um dia para o outro, para a bomba do posto.
O preço final dos combustíveis no Brasil depende de vários componentes: valor cobrado pelo produtor ou importador, impostos, mistura de biocombustíveis, custos de distribuição e margem dos postos.
Além disso, o governo está tentando amortecer o choque.
Neste mês, os tributos federais sobre a gasolina foram reduzidos em R$ 0,63 por litro, medida prevista até 9 de outubro. Para o diesel rodoviário, o governo anunciou nesta segunda-feira, 28, a manutenção de uma subvenção de R$ 2,12 por litro para conter o impacto da disparada internacional.
Na prática, significa que parte do choque não está chegando integralmente ao consumidor neste momento.
Mas a conta não desaparece.
Ela muda de lugar.
Redução de impostos significa menos arrecadação. Subsídio significa utilização de recursos públicos. E, quanto mais tempo o petróleo permanecer caro, maior será o desafio para manter essas medidas.
E depois do combustível vêm os juros
Existe ainda outro caminho pelo qual uma guerra no Oriente Médio pode afetar uma família brasileira que nunca comprou um barril de petróleo na vida.
A inflação.
O próprio Banco Central alertou, em seu relatório mais recente, que o conflito no Oriente Médio continua sendo a principal fonte de risco para a economia mundial no curto prazo e que os preços elevados de energia, fertilizantes e outros insumos seguem pressionando a inflação em vários países.
Se combustível, transporte e alimentos começarem a subir juntos e contaminarem outros preços, controlar a inflação se torna mais difícil.
E inflação resistente interfere nos juros.
Em setembro, o Banco Central reduziu a Selic para 13,75% ao ano, mas deixou claro que monitora justamente os efeitos secundários de choques como o do petróleo.
Traduzindo novamente para a vida real: se o choque do petróleo alimentar uma inflação mais persistente, o espaço para continuar reduzindo os juros pode diminuir.
E juros altos significam crédito mais caro, financiamento mais pesado e prestações maiores para famílias e empresas.
O problema não é o petróleo chegar a US$ 103. É ficar lá
Um ou dois dias de petróleo caro são muito menos preocupantes do que semanas ou meses nesse patamar.
É a duração do conflito que passa a importar.
Se houver acordo entre Estados Unidos e Irã, normalização das rotas e recuperação da oferta, o preço pode recuar rapidamente.
Se a guerra continuar, novas instalações forem atingidas ou o transporte pelo Golfo voltar a sofrer restrições mais severas, o mercado pode enfrentar outro choque.
Por enquanto, parte das exportações da região está se recuperando, o que ajudou a aliviar os preços nesta terça-feira. Mas as soluções encontradas continuam mais caras e menos eficientes do que o funcionamento normal do comércio de petróleo.
É por isso que o brasileiro deveria prestar atenção numa guerra aparentemente tão distante.
Quando o petróleo passa dos US$ 100, a discussão deixa de ser apenas sobre geopolítica.
Ela passa a ser sobre quanto custa abastecer um caminhão, transportar um alimento, produzir um produto, pegar um avião, controlar a inflação e financiar uma compra.
A guerra está no Oriente Médio.
Mas, se o petróleo continuar caro por muito tempo, parte da conta inevitavelmente atravessa o oceano.