Trump, Xi e o Brasil no meio: o que realmente está em jogo na eleição brasileira

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Flávio Bolsonaro construiu uma relação política direta com Donald Trump. Lula aprofundou uma parceria estratégica com Xi Jinping. Mas reduzir a eleição a “Estados Unidos contra China” esconde a parte mais interessante da história. A China é disparada o maior mercado do Brasil. Os Estados Unidos continuam centrais para investimentos, tecnologia e finanças. E, no meio dessa disputa, o país possui algumas das reservas minerais mais cobiçadas do planeta.

Existe uma leitura tentadora sobre o segundo turno brasileiro.

De um lado estaria Flávio Bolsonaro, próximo de Donald Trump e identificado com o novo bloco conservador que Washington tenta consolidar nas Américas. Do outro, Lula, parceiro político de Xi Jinping, defensor dos BRICS e de uma ordem internacional menos dependente dos Estados Unidos.

A imagem funciona politicamente.

Geopoliticamente, é insuficiente.

Até esta terça-feira, 6 de outubro, nem o governo dos Estados Unidos nem o governo chinês formalizaram um endosso eleitoral comparável a uma declaração oficial de apoio a um dos candidatos.

Mas isso não significa neutralidade estratégica.

Washington sabe que uma eventual Presidência de Flávio poderia aproximar o Brasil da arquitetura política e de segurança que Donald Trump tenta construir no continente. Pequim sabe que a continuidade de Lula preservaria uma relação que foi elevada nos últimos anos a um nível de coordenação estratégica muito superior ao de uma simples parceria comercial.

A eleição brasileira, portanto, não é uma disputa entre Estados Unidos e China.

Mas Estados Unidos e China têm muito a perder, muito a ganhar e muito a negociar dependendo de quem ocupar o Palácio do Planalto em janeiro.

Flávio entrou no Salão Oval antes mesmo de entrar no segundo turno

A relação entre Flávio Bolsonaro e o governo Trump não é apenas ideológica.

Em maio, ainda como candidato à Presidência, Flávio foi recebido por Donald Trump no Salão Oval da Casa Branca. No dia seguinte, reuniu-se também com o vice-presidente JD Vance e com o secretário de Estado Marco Rubio.

Nos encontros foram discutidos combate ao crime organizado, tarifas comerciais, liberdade de expressão e minerais críticos. O próprio Trump posteriormente classificou Flávio publicamente como um homem inteligente que ama o Brasil.

Isso representa um grau de acesso incomum para um candidato estrangeiro em plena campanha eleitoral.

Mas existe uma diferença importante entre proximidade e apoio formal.

Quando Trump foi questionado diretamente, às vésperas da eleição, se apoiava Flávio, evitou declarar voto político no brasileiro. Depois do primeiro turno, Marco Rubio também comentou o resultado sem endossar oficialmente nenhum dos candidatos.

Portanto, existe uma evidente afinidade política entre o campo trumpista e Flávio Bolsonaro, mas transformar essa relação em um apoio formal do Estado americano seria ir além dos fatos conhecidos até agora.

Com Lula, Pequim construiu outra coisa

A relação de Lula com a China possui natureza diferente.

Ela não nasceu de uma identidade pessoal entre Lula e Xi Jinping, embora exista proximidade entre os dois governos.

É uma relação que foi institucionalizada.

Em julho deste ano, Xi conversou por telefone com Lula e afirmou que China e Brasil haviam avançado na construção de uma “comunidade com futuro compartilhado”, expressão reservada pela diplomacia chinesa para relações que Pequim considera estratégicas. Xi também defendeu maior coordenação bilateral e multilateral entre os dois países.

Em junho, durante reunião com o chanceler Mauro Vieira, o vice-presidente chinês Han Zheng voltou a dizer que Pequim enxerga a relação com o Brasil de uma perspectiva “estratégica e de longo prazo”, destacando cooperação tecnológica, investimentos e articulação entre os dois países no sistema internacional.

Isso também não equivale a uma declaração chinesa de apoio eleitoral a Lula.

Mas significa que Pequim construiu com o atual governo brasileiro uma arquitetura diplomática que tende naturalmente à continuidade.

E existe uma razão muito concreta para isso.

Dinheiro.

Os números explicam por que a China acompanha Brasília tão de perto

Entre janeiro e agosto de 2026, o Brasil exportou US$ 77,1 bilhões para a China.

Para os Estados Unidos, exportou US$ 24,1 bilhões.

Ou seja, para cada dólar vendido aos americanos, o Brasil vendeu pouco mais de três dólares aos chineses.

A China absorveu 30,7% de todas as exportações brasileiras no período. Os Estados Unidos ficaram com 9,6%.

Quando importações e exportações são somadas, a relação fica ainda mais evidente.

A corrente comercial Brasil-China alcançou US$ 128,6 bilhões apenas nos oito primeiros meses deste ano.

Com os Estados Unidos, ficou em US$ 51,4 bilhões.

Existe outra diferença fundamental.

O Brasil acumulou um superávit de US$ 25,5 bilhões com a China nesse período.

Com os Estados Unidos, teve déficit de US$ 3,2 bilhões.

Essa diferença ajuda a compreender por que qualquer presidente brasileiro encontra enorme dificuldade prática para transformar divergências ideológicas com Pequim em ruptura econômica.

A China compra soja.

Compra minério.

Compra petróleo.

Compra carnes.

Compra enormes volumes de produtos sobre os quais estados inteiros, empresas brasileiras, produtores rurais, ferrovias, portos e cadeias logísticas construíram seus negócios.

A relação deixou há muito tempo de pertencer apenas ao Itamaraty.

Ela está dentro da economia brasileira.

Mas aqui aparece o paradoxo: o dinheiro ainda fala inglês

Se a análise terminasse no comércio exterior, pareceria que o Brasil já gravita economicamente ao redor da China.

Não é tão simples.

Os Estados Unidos continuam exercendo um peso enorme sobre outro lado da economia brasileira: capital, finanças, tecnologia e investimento direto.

Pelo critério de controlador final utilizado pelo Banco Central, empresas e investidores dos Estados Unidos possuíam US$ 232,8 bilhões em participação direta no capital de empresas brasileiras em 2024, maior posição entre todos os países analisados.

O capital americano se concentra justamente em setores de enorme valor estratégico, como serviços financeiros, tecnologia da informação, informação e comércio.

E existe um número talvez ainda mais revelador.

Apesar de a China ser o maior parceiro comercial do Brasil, 95,56% das exportações brasileiras em 2025 foram declaradas em dólares.

Nas importações, o dólar representou 79,26%.

O renminbi chinês respondeu por apenas 1,36% das importações brasileiras e nem apareceu entre as cinco principais moedas utilizadas para denominar as exportações.

Esse dado resume uma parte importante da geopolítica brasileira.

O maior comprador é a China. A principal moeda continua sendo americana.

É possível aprofundar relações comerciais com Pequim, defender maior utilização de moedas locais e fortalecer os BRICS.

Mas a estrutura financeira mundial ainda passa pesadamente pelo dólar, pelo mercado de capitais americano e por instituições conectadas ao sistema dos Estados Unidos.

O Brasil está economicamente ligado aos dois lados por mecanismos diferentes.

E a China está deixando de ser apenas compradora

Existe outra transformação acontecendo silenciosamente.

Durante anos, a imagem da relação Brasil-China foi relativamente simples.

O Brasil enviava commodities.

A China enviava produtos industriais.

Esse modelo começou a mudar.

Os investimentos chineses no Brasil chegaram a US$ 6,1 bilhões em 2025, alta de 45% em relação ao ano anterior. Segundo levantamento empresarial bilateral, o Brasil tornou-se naquele ano o principal destino mundial de investimentos chineses.

Os aportes avançaram principalmente sobre eletricidade, mineração e indústria automotiva. Empresas como BYD e GWM passaram a produzir no país.

Ou seja, Pequim já não está interessada apenas na soja que sai de Santos ou no minério embarcado em direção à Ásia.

Está entrando na infraestrutura, na energia, na indústria e nos minerais brasileiros.

E é justamente aqui que a disputa com Washington se torna mais delicada.

Debaixo do Brasil existem 21 milhões de toneladas que interessam aos dois

As chamadas terras raras transformaram-se em uma das matérias-primas mais estratégicas do século XXI.

São utilizadas em computadores, smartphones, veículos elétricos, turbinas eólicas, equipamentos médicos, radares, sistemas de defesa, satélites e armamentos avançados.

Segundo o levantamento de 2026 do Serviço Geológico dos Estados Unidos, o Brasil possui cerca de 21 milhões de toneladas de reservas de terras raras.

É a segunda maior reserva conhecida do planeta.

A China possui 44 milhões.

Os próprios Estados Unidos possuem apenas 1,9 milhão.

Mas existe uma diferença enorme entre possuir a reserva e controlar a cadeia produtiva.

A China produziu aproximadamente 270 mil toneladas de terras raras em 2025.

O Brasil produziu apenas 2 mil.

Portanto, a riqueza brasileira está majoritariamente no subsolo.

O valor geopolítico está justamente em decidir quem financiará a extração, quem dominará o processamento, onde será feita a transformação industrial e para qual mercado esses minerais irão.

Essa discussão apareceu diretamente na conversa de Flávio com Trump.

Para Washington, terras raras são segurança nacional

Os Estados Unidos querem reduzir a dependência chinesa de minerais utilizados em setores industriais e militares.

A própria Agência Nacional de Mineração brasileira reconhece que o interesse americano pelos minerais brasileiros precisa ser entendido dentro da estratégia global de diversificação de cadeias de suprimento e segurança tecnológica.

A agência também ressalta que o interesse não é exclusivamente americano. China e União Europeia disputam as mesmas cadeias.

Flávio percebeu esse espaço.

Durante a campanha, apresentou o Brasil aos Estados Unidos como possível alternativa para minerais críticos e terras raras.

Mas existe um detalhe importante em seu programa de governo.

Embora tenha estabelecido forte aproximação com Washington, Flávio afirma formalmente que pretende negociar com todos os mercados relevantes e cita explicitamente China, União Europeia e Estados Unidos.

Seu programa defende uma política externa guiada pelo interesse comercial brasileiro, e não uma ruptura automática com Pequim.

Isso não acontece por acaso.

Uma coisa é fazer campanha próximo a Trump.

Outra é governar um país que vende mais de US$ 100 bilhões por ano para a China.

Flávio teria um problema chamado soja

É aqui que a geopolítica encontra a política doméstica.

Imagine um governo brasileiro tentando adotar uma política de forte contenção da China semelhante à de Washington.

Quem absorveria rapidamente o volume de soja, minério, petróleo e carne atualmente comprado pelos chineses?

Essa pergunta não é teórica.

A disputa comercial entre Estados Unidos e China já mostrou como o agronegócio brasileiro pode ser diretamente afetado pelas decisões de Washington e Pequim.

Quando os chineses reduziram compras agrícolas americanas durante conflitos comerciais anteriores, produtores brasileiros ocuparam parte daquele espaço.

O Banco Central identificou justamente soja, petróleo, carne bovina e algodão entre os produtos nos quais Brasil e Estados Unidos concorrem diretamente pelo mercado chinês.

Isso cria uma situação curiosa.

Um governo brasileiro politicamente próximo dos Estados Unidos poderia continuar economicamente interessado em uma disputa comercial entre Washington e Pequim que desviasse compras chinesas para o Brasil.

Geopolítica nem sempre segue afinidade ideológica.

Lula também não pode simplesmente escolher Pequim

A mesma contradição existe do outro lado.

Lula aprofundou a participação brasileira nos BRICS, defende uma ordem internacional mais multipolar e tem uma relação diplomática muito mais estruturada com Xi Jinping.

Mas isso não significa que possa prescindir dos Estados Unidos.

O governo Trump impôs neste ano novas sobretaxas a parcelas relevantes das exportações brasileiras utilizando a Seção 301 da legislação comercial americana.

Segundo os cálculos oficiais brasileiros, 23,1% das exportações destinadas aos Estados Unidos passaram a ser alcançadas pelas novas sobretaxas vinculadas às investigações comerciais americanas.

A reação de Lula não foi romper.

Foi negociar.

Depois de conversas entre Lula e Trump, representantes dos dois governos retomaram formalmente o diálogo comercial no final de agosto para buscar soluções para as tarifas.

Isso também revela muito.

O presidente que aprofundou a relação com Xi continua precisando negociar com Trump.

Assim como um eventual presidente politicamente próximo de Trump continuaria precisando negociar com Xi.

Essa talvez seja a maior limitação de qualquer projeto de alinhamento automático brasileiro.

A economia não permite uma escolha simples.

E nem os Estados Unidos tratam o Brasil apenas ideologicamente

Há outro detalhe que quebra a narrativa de dois blocos perfeitamente definidos.

Trump também recebeu Lula na Casa Branca neste ano.

Os dois governos mantiveram negociações comerciais mesmo em meio às divergências.

Washington aplicou tarifas ao Brasil, mas continuou negociando.

Pequim aprofundou a parceria com Lula, mas o comércio sino-brasileiro foi construído durante governos de direita e de esquerda.

Estados operam por interesse.

Presidentes importam.

Ideologia importa.

Mas minério, soja, petróleo, tecnologia, mercados consumidores e segurança nacional frequentemente importam mais.

É por isso que uma eventual mudança em Brasília não apaga décadas de integração econômica.

A verdadeira disputa é sobre quem construirá o Brasil do futuro

A questão mais profunda talvez nem seja para quem o Brasil venderá soja.

É quem participará da próxima fase de sua industrialização.

Quem financiará ferrovias, portos e redes elétricas?

Quem fornecerá tecnologia para telecomunicações?

Quem desenvolverá baterias?

Quem processará lítio?

Quem controlará cadeias de terras raras?

Quem financiará inteligência artificial e data centers?

Quem terá acesso preferencial aos minerais?

E, principalmente, o Brasil continuará exportando a matéria-prima ou conseguirá utilizar essa disputa internacional para trazer processamento, indústria e tecnologia para dentro do país?

É nesse ponto que Washington e Pequim realmente se encontram.

Os dois querem acesso.

Os dois querem segurança de fornecimento.

Os dois querem influência.

E os dois sabem que o Brasil possui ativos que se tornaram muito mais valiosos num mundo fragmentado.

Talvez o Brasil não esteja entre dois lados. Talvez os dois lados estejam disputando o Brasil

Durante décadas, a política externa brasileira utilizou uma ideia relativamente simples.

Não escolher automaticamente um único polo.

Negociar com Estados Unidos.

Negociar com China.

Negociar com Europa.

Preservar espaço próprio.

A rivalidade atual entre Washington e Pequim torna essa estratégia muito mais difícil, mas também potencialmente mais valiosa.

Quanto maior a competição por alimentos, energia, minerais críticos e mercados emergentes, maior pode ser o poder de negociação de um país que possui todos esses ativos.

O risco aparece quando proximidade política se transforma em dependência estratégica.

Isso vale para qualquer direção.

Dependência excessiva da China como mercado comprador cria vulnerabilidade.

Dependência excessiva dos Estados Unidos em finanças, tecnologia ou segurança também cria vulnerabilidade.

E talvez seja essa a discussão internacional mais importante escondida dentro da eleição de 2026.

Flávio Bolsonaro e Lula não representam simplesmente duas bandeiras estrangeiras.

Flávio possui uma conexão política muito mais forte com o governo Trump e sinaliza maior aproximação com Washington.

Lula construiu uma relação estratégica muito mais profunda com Xi e uma política externa de fortalecimento dos BRICS e da multipolaridade.

Mas quem vencer encontrará o mesmo mapa sobre a mesa.

A China é o maior cliente comercial do Brasil.

Os Estados Unidos continuam profundamente enraizados no capital, nas finanças e na tecnologia.

A moeda dominante ainda é o dólar.

Os chineses estão aumentando seus investimentos.

Americanos e chineses querem minerais brasileiros.

E o Brasil possui 21 milhões de toneladas de terras raras que o mundo gostaria de transformar em tecnologia, energia e poder.

Por isso, talvez a pergunta central desta eleição não seja se o Brasil ficará com Trump ou com Xi.

É outra.

Quanto o Brasil conseguirá cobrar para não precisar escolher nenhum dos dois?

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