Presidente dos Estados Unidos usou o resultado brasileiro para comparar os sistemas eleitorais dos dois países e voltou a atacar a votação americana. Apesar da proximidade da família Bolsonaro com seu governo, Trump não parabenizou Flávio nem declarou apoio ao candidato no segundo turno.
A eleição brasileira atravessou a fronteira poucas horas depois do fechamento das urnas e chegou diretamente à rede social do presidente dos Estados Unidos.
Donald Trump comentou o primeiro turno realizado neste domingo, 4 de outubro, mas fez isso de uma maneira diferente da esperada por quem aguardava uma manifestação sobre Flávio Bolsonaro.
O americano não comemorou a primeira colocação do candidato do PL.
Não criticou Lula.
Não pediu votos para Flávio.
Trump escolheu outro aspecto da eleição brasileira para destacar.
A velocidade da apuração.
Em publicação no Truth Social, o presidente americano chamou atenção para o fato de cerca de 125 milhões de brasileiros terem participado da votação e de o resultado ter sido conhecido poucas horas depois do encerramento das urnas.
A comparação seguinte foi com os Estados Unidos.
Trump citou Detroit, Filadélfia e Califórnia e voltou a questionar a demora da contagem de votos em partes do território americano. Ao escrever sobre o processo, fez um jogo de palavras entre “fraudar” e “calcular” e terminou afirmando que a votação nos Estados Unidos seria “corrupta”.
O Brasil, portanto, acabou transformado por Trump em argumento para uma batalha política que ocorre dentro dos próprios Estados Unidos.
Trump elogiou a rapidez brasileira
A manifestação tem um detalhe politicamente interessante.
Trump passou os últimos anos como um dos maiores críticos de sistemas eleitorais que considera vulneráveis a fraudes e irregularidades.
Ao observar o Brasil, porém, destacou justamente uma das características mais particulares do modelo brasileiro.
A velocidade.
A votação terminou no domingo e, ainda na mesma noite, já era possível saber que Flávio Bolsonaro e Lula disputariam o segundo turno em 25 de outubro.
Trump utilizou isso para questionar por que alguns estados americanos demoram dias para concluir suas próprias contagens.
É importante fazer uma distinção.
O presidente americano não fez uma declaração abrangente sobre a segurança das urnas eletrônicas brasileiras.
Seu elogio foi especificamente à rapidez da apuração.
Mesmo assim, a publicação coloca o sistema eleitoral brasileiro numa posição pouco habitual dentro do discurso trumpista.
Desta vez, o Brasil apareceu como exemplo positivo na comparação com os Estados Unidos.
Só teve um problema: Trump chamou o Brasil de Índia
A primeira versão da publicação também produziu uma gafe internacional.
Trump escreveu inicialmente que 125 milhões de pessoas haviam participado do primeiro turno da “eleição presidencial da Índia”.
Era o Brasil.
A Índia não realizou eleição presidencial popular neste domingo e sequer escolhe seu presidente por votação direta da população.
A postagem original foi posteriormente apagada e substituída por uma versão corrigida, agora mencionando corretamente a eleição presidencial brasileira.
O erro rapidamente repercutiu fora dos dois países.
Mas não alterou a essência da manifestação.
Trump estava acompanhando a apuração brasileira e decidiu utilizá-la para reforçar sua própria campanha contra as regras eleitorais americanas, justamente às vésperas das eleições legislativas de meio de mandato dos Estados Unidos, marcadas para 3 de novembro.
E Flávio?
É aqui que a manifestação americana ganha uma dimensão política maior para o Brasil.
Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, à frente de Lula, que recebeu 45,16%.
Foi um resultado de enorme repercussão internacional.
Outros líderes da direita mundial foram imediatamente mais explícitos.
Javier Milei parabenizou Flávio e classificou o resultado como histórico. Benjamin Netanyahu também felicitou o candidato e manifestou expectativa de reconstruir uma relação mais próxima entre Brasil e Israel.
Trump fez diferente.
Até o início da tarde desta segunda-feira, não havia publicado uma mensagem de parabéns a Flávio pelo primeiro lugar nem formalizado apoio ao candidato no segundo turno.
E isso chama atenção porque a relação entre Trump e a família Bolsonaro está longe de ser distante.
Trump já recebeu Flávio na Casa Branca
Em maio deste ano, Flávio Bolsonaro esteve com Donald Trump na Casa Branca.
A relação política entre os dois campos vem sendo construída há anos e ultrapassa a proximidade pessoal entre Trump e Jair Bolsonaro.
Integrantes do governo americano e políticos republicanos mantêm canais com o grupo político brasileiro. O próprio Flávio é tratado internacionalmente como um nome próximo ao campo trumpista.
Por isso, Trump foi questionado diretamente antes da eleição se apoiaria Flávio.
A resposta veio na sexta-feira, dois dias antes da votação.
Ele não disse sim.
Também não disse não.
Afirmou que estava analisando toda a situação e que acompanharia a eleição brasileira “muito de perto”. Um dia antes, já havia classificado o pleito no Brasil como “muito importante”.
O primeiro turno aconteceu.
Flávio terminou na frente.
E Trump permaneceu publicamente cuidadoso sobre o candidato.
Cautela contrasta com outros países
A postura chama ainda mais atenção porque Trump não tem adotado a mesma cautela em todas as eleições latino-americanas.
Em outras disputas da região, o presidente americano e integrantes do seu campo político fizeram manifestações muito mais claras em favor de candidatos ideologicamente próximos.
No Brasil, até agora, a abordagem pública é diferente.
Isso não significa distanciamento de Flávio.
Tampouco significa aproximação eleitoral com Lula.
Significa apenas que, publicamente, Trump ainda não transformou sua proximidade política com o campo bolsonarista em um endosso formal para o segundo turno brasileiro.
E essa diferença importa.
Brasil virou peça da política americana
Há outro aspecto da manifestação de Trump que pode passar despercebido.
Quando escreveu sobre a eleição brasileira, o principal destinatário de sua mensagem talvez nem estivesse no Brasil.
Estava nos Estados Unidos.
Trump enfrenta eleições legislativas de meio de mandato em menos de um mês. Republicanos tentarão preservar sua força no Congresso, enquanto o presidente busca mobilizar sua base eleitoral.
Nesse contexto, o debate sobre regras de votação voltou ao centro da estratégia republicana.
Ao mostrar que um país com aproximadamente 125 milhões de votantes consegue conhecer rapidamente seu resultado, Trump tentou reforçar uma pergunta dirigida aos americanos.
Por que algumas regiões dos Estados Unidos demoram tanto?
Foi esse o verdadeiro núcleo de sua publicação.
A eleição brasileira virou munição para uma discussão eleitoral americana.
O segundo turno coloca Brasil e Estados Unidos novamente frente a frente
Mas essa história pode mudar nas próximas três semanas.
Flávio Bolsonaro e Lula representam também projetos muito diferentes de relacionamento internacional.
Flávio sinaliza uma política externa mais próxima dos Estados Unidos de Trump e de governos conservadores da América Latina.
Lula defende maior autonomia diplomática, mantém relações importantes com China e países do Sul Global e teve diversos episódios de atrito com Washington durante o atual mandato.
Trump, portanto, acompanha uma eleição que interessa diretamente à estratégia americana para a América Latina.
O Brasil não é apenas mais um país da região.
É a maior economia latino-americana, membro do G20, dos Brics, potência agrícola, fornecedor de minerais estratégicos e principal parceiro comercial regional de diversas economias.
Uma mudança de governo em Brasília pode alterar parte desse equilíbrio.
O silêncio sobre Flávio também será observado
Depois do primeiro turno, portanto, existem duas histórias acontecendo simultaneamente.
A primeira é aquilo que Trump disse.
Ele acompanhou a votação brasileira, destacou a rapidez da apuração e usou o Brasil para atacar o sistema eleitoral dos Estados Unidos.
A segunda é aquilo que Trump ainda não disse.
Não parabenizou publicamente Flávio Bolsonaro pela liderança.
Não declarou apoio no segundo turno.
Não atacou Lula ao comentar o resultado.
Pode fazer isso posteriormente.
Pode manter a atual cautela.
Por enquanto, o fato é que o presidente americano escolheu falar sobre o Brasil sem entrar diretamente na disputa entre os dois brasileiros.
Ainda assim, uma coisa ficou evidente.
Poucas horas depois das urnas fecharem, a eleição brasileira já estava no radar da Casa Branca.
E durante as três semanas que separam o primeiro turno da decisão final, cada palavra de Donald Trump sobre o Brasil será observada tanto em Brasília quanto em Washington.