França enfrenta maior revolta estudantil em décadas e governo corre para conter crise na educação

Política Real
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Protestos começaram com alunos denunciando falta de professores, salas superlotadas e escolas deterioradas. O movimento se espalhou pelo país, incorporou professores e pais e levou mais de 250 mil pessoas às ruas. Governo anuncia diálogo e mudanças, mas mantém um orçamento que prevê cortar postos de professores.

A França acordou nesta quarta-feira tentando descobrir como interromper uma das maiores mobilizações estudantis das últimas décadas.

O que começou em setembro, principalmente nos liceus das regiões mais pobres da periferia de Paris, se transformou em um movimento nacional. Nesta terça-feira, 6 de outubro, estudantes, professores e pais saíram às ruas em dezenas de cidades.

O governo contabilizou cerca de 266 mil manifestantes. Os organizadores falaram em até 450 mil. Em Paris foram 56 mil segundo as autoridades. Houve protestos também em Lyon, Marseille, Strasbourg, Rennes, Toulouse, Nantes e várias outras cidades.

Mas afinal, o que aconteceu com a educação francesa?

Tudo começou com problemas extremamente básicos

A origem da revolta não está em uma grande reforma educacional.

Está em coisas muito mais simples.

Alunos começaram a protestar contra professores ausentes durante semanas ou meses, vagas docentes não preenchidas, salas com mais de 30 estudantes, jornadas que podem começar às 8h e terminar às 18h, intervalos curtos para almoço e prédios escolares em péssimas condições.

Há relatos de infiltrações, banheiros deteriorados, falta de cadeiras e até presença de ratos em alguns estabelecimentos.

Em Seine-Saint-Denis, uma das regiões mais pobres da área metropolitana de Paris, alunos relataram chegar a provas importantes sem terem recebido regularmente aulas de determinadas disciplinas.

Foi dali que o movimento ganhou força e começou a se espalhar.

A reivindicação ficou simples de entender: os estudantes querem que o Estado garanta professores, funcionários e condições mínimas para estudar.

Então veio o orçamento e colocou gasolina na crise

No meio da mobilização, o governo apresentou sua proposta de orçamento para 2027.

O Ministério da Educação receberá aproximadamente € 1,2 bilhão adicional. O problema é que, dependendo do recorte utilizado, o crescimento dos recursos fica abaixo da inflação projetada.

E existe um número que virou munição imediata para os manifestantes: o orçamento prevê a eliminação de 1.588 postos de professores titulares, dos quais 1.250 estão na rede pública. Entre eles, 836 são de colégios e liceus públicos.

O governo apresenta outra conta.

A França está enfrentando forte queda demográfica e deverá ter aproximadamente 180 mil alunos a menos em 2027. O Ministério da Educação argumenta que, se reduzisse o número de professores exatamente na mesma proporção da redução dos estudantes, poderia cortar cerca de 9.600 postos.

Por isso, sustenta que 1.588 cortes representam, na verdade, preservação relativa da estrutura.

O orçamento também prevê aproximadamente 1.300 novos acompanhantes para alunos com deficiência, mais de 300 profissionais médico-sociais e cerca de 200 conselheiros educacionais.

Para os sindicatos, entretanto, retirar professores quando uma das principais reclamações das ruas é justamente a falta de professores parece contraditório.

E foi nesse momento que a mobilização explodiu.

A violência mudou completamente o tamanho da crise

Os bloqueios dos liceus começaram pacificamente em grande parte do país.

Depois vieram os confrontos.

Barricadas foram incendiadas. Objetos e fogos de artifício foram lançados contra policiais. Escolas sofreram depredações. Em alguns pontos houve ataques contra funcionários.

A resposta policial também passou a ser duramente questionada.

Forças de segurança utilizaram gás lacrimogêneo, cassetetes, canhões de água e armas não letais. Um adolescente de 15 anos perdeu a mão depois que uma granada utilizada para dispersar manifestantes explodiu em Lens. Autoridades abriram investigações sobre possíveis excessos policiais em outros episódios.

Somente nesta terça-feira foram 488 detenções.

O primeiro-ministro Sébastien Lecornu informou que, desde o início dos confrontos, pelo menos 215 adolescentes e 85 profissionais da educação foram feridos. Mais de 700 policiais também ficaram feridos.

O governo passou a dizer que grupos externos estão se infiltrando nas manifestações para provocar violência.

Serviços de inteligência chegaram a relacionar a origem de parte da mobilização à esquerda radical e ao partido França Insubmissa. O partido nega ter organizado os distúrbios e afirma apenas apoiar as reivindicações dos estudantes.

Até agora, porém, não há dúvida de que as reclamações educacionais que deram origem ao movimento são anteriores aos episódios de violência.

O governo começou a ceder

Lecornu percebeu que apenas enviar polícia para os liceus não encerraria o problema.

Nesta semana, apresentou cinco frentes de resposta.

A primeira será atacar professores ausentes e vagas não preenchidas. O Ministério da Educação recebeu ordem para acelerar substituições, principalmente em turmas que farão exames, e deverá apresentar um primeiro balanço já em 16 de outubro.

A segunda envolve os prédios escolares. Como a manutenção dos liceus é responsabilidade dos governos regionais, Paris iniciou reuniões com as regiões para mapear problemas urgentes envolvendo salas, banheiros, aquecimento, refeitórios e internatos.

A terceira mexe na própria rotina escolar. O governo admite discutir jornadas de 8h às 18h, horários ociosos e intervalos insuficientes para almoço.

A quarta envolve o Parcoursup, sistema utilizado para ingresso no ensino superior e criticado pelos estudantes por falta de transparência.

E a quinta promete ampliar a participação dos próprios alunos nas decisões dentro dos liceus.

E hoje acontece uma tentativa de diálogo nacional

A partir desta quarta-feira, todos os liceus franceses deverão reservar meio período de aulas para reuniões entre estudantes, professores e direções.

O governo também abriu uma consulta nacional pela plataforma Agora, disponível até 23 de outubro, para receber diretamente reclamações e propostas dos alunos.

As primeiras decisões concretas deverão ser apresentadas até o final do mês.

Só que essa estratégia já enfrenta resistência.

O SNES-FSU, um dos principais sindicatos de professores do ensino secundário, acusa o governo de tentar utilizar as reuniões para desmobilizar os protestos. A entidade orientou professores a transformarem esses encontros em assembleias e afirmou que pretende continuar apoiando as mobilizações.

Então a crise está acabando?

Ainda não.

O governo conseguiu finalmente colocar propostas concretas sobre a mesa, mas praticamente todas estão na fase de discussão.

O problema político permanece no orçamento.

De um lado, Lecornu argumenta que está aumentando os recursos da educação mesmo com uma enorme crise fiscal e com forte redução do número de alunos.

Do outro, estudantes e sindicatos perguntam como uma escola que já sofre com ausência de professores pode melhorar enquanto o próprio orçamento prevê eliminar mais 1.588 postos docentes.

Essa é agora a disputa central.

Os protestos começaram pedindo professor dentro da sala, condições dignas nos prédios e uma rotina escolar menos exaustiva.

Depois vieram a polícia, milhares de detenções, escolas fechadas, sindicatos, partidos e uma crise nacional.

E o governo francês descobriu que o problema que parecia estar restrito a alguns portões de liceus da periferia de Paris agora está espalhado pelas ruas do país inteiro.

As próximas três semanas serão decisivas.

Até o final de outubro, Lecornu prometeu apresentar medidas, custos e prazos.

Os estudantes já deixaram claro que querem algo diferente de uma consulta.

Querem saber o que efetivamente vai mudar quando voltarem para a sala de aula.

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