Governo Netanyahu ordenou encerramento da representação britânica em Jerusalém Oriental depois de Londres anunciar sanções contra assentamentos israelenses. Reino Unido rejeitou a autoridade de Israel para fechar o local e negociou uma saída incomum: o consulado perde o nome, mas o prédio continuará funcionando como missão diplomática voltada aos palestinos.
Uma das relações diplomáticas mais tradicionais do Oriente Médio entrou nesta quinta-feira em território bastante incomum.
Israel havia dado ao Reino Unido até 8 de outubro para fechar seu Consulado-Geral em Jerusalém Oriental.
O prazo chegou.
A placa do consulado foi retirada.
O cônsul-geral e parte dos diplomatas deverão deixar o país.
Só que o prédio continuará aberto.
O governo britânico anunciou que a representação passará a se chamar UK Mission, Jerusalem, continuará trabalhando com os palestinos e permanecerá independente da Embaixada britânica em Tel Aviv.
Em outras palavras, Israel diz que fechou o consulado.
O Reino Unido diz que sua presença diplomática em Jerusalém continua.
E os dois estão, de certa maneira, falando a verdade.
Primeiro, é preciso entender onde está esse consulado
A localização é justamente o coração da disputa.
Não se trata simplesmente de um consulado britânico “em Israel”.
A representação fica em Jerusalém Oriental, no bairro de Sheikh Jarrah, e existe há quase 200 anos. Sua origem remonta a 1839, muito antes da criação do Estado de Israel.
Hoje, ela é responsável pela relação diplomática britânica com os palestinos em Jerusalém, na Cisjordânia e em Gaza, além de prestar serviços consulares.
A Embaixada do Reino Unido em Israel é outra representação e fica em Tel Aviv.
Isso acontece porque Londres não reconhece a soberania israelense sobre Jerusalém Oriental.
A posição britânica é que o território está sob ocupação israelense e que o status definitivo de Jerusalém deverá ser definido em uma negociação entre israelenses e palestinos.
Israel possui uma posição completamente diferente e considera Jerusalém inteira sua capital.
É exatamente nesse choque jurídico e diplomático que nasceu a crise atual.
Tudo começou com os assentamentos
Em 8 de setembro, o Reino Unido anunciou uma forte mudança em sua política para a Cisjordânia.
O governo britânico decidiu avançar com a proibição da importação de produtos provenientes de assentamentos israelenses localizados nos territórios ocupados.
Também anunciou sanções contra pessoas e empresas envolvidas no financiamento, construção ou expansão desses assentamentos, restrições à publicidade no Reino Unido de propriedades localizadas nessas áreas e novas limitações sobre determinadas exportações que contribuam para a ocupação.
A justificativa britânica foi direta.
Londres considera que a expansão dos assentamentos, especialmente o projeto E1, ameaça tornar inviável a criação futura de um Estado palestino territorialmente conectado.
O Reino Unido também cita o crescimento da violência de colonos contra palestinos.
E fez questão de estabelecer uma diferença: as medidas são contra os assentamentos, não contra Israel como Estado.
O governo britânico, inclusive, afirma continuar contrário ao movimento internacional de boicote geral a Israel.
Israel respondeu mirando justamente o consulado
A reação foi rápida.
O chanceler israelense Gideon Sa’ar anunciou que o Consulado britânico em Jerusalém seria fechado em 30 dias.
A decisão foi tomada em conjunto com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.
Israel também decidiu retirar representantes britânicos de estruturas internacionais ligadas a Gaza, interromper uma missão britânica que auxiliava no treinamento das forças de segurança da Autoridade Palestina e impedir a entrada de políticos e cidadãos britânicos acusados pelo governo israelense de atividades antissemitas ou anti-Israel.
Para o governo Netanyahu, as medidas britânicas representam uma ofensiva política contra Israel.
Autoridades israelenses chegaram a acusar Londres de interferir na eleição israelense marcada para 27 de outubro.
O Reino Unido rejeitou essa interpretação e disse que o calendário das sanções está relacionado ao avanço dos assentamentos e à situação na Cisjordânia.
E então começou uma batalha sobre quem pode mandar em Jerusalém Oriental
Londres respondeu dizendo algo extremamente sério do ponto de vista diplomático:
Israel não teria autoridade jurídica para fechar aquela representação.
O raciocínio britânico parte justamente da condição de Jerusalém Oriental.
Se o Reino Unido considera o território ocupado e não reconhece a soberania israelense sobre ele, Londres entende que Israel não pode simplesmente exercer ali a mesma autoridade soberana que exerceria sobre um consulado localizado dentro de território israelense reconhecido internacionalmente.
Israel, naturalmente, não aceita essa premissa.
Para Jerusalém, a cidade está sob soberania israelense.
A discussão, portanto, deixou de ser apenas sobre sanções comerciais.
Passou a tocar diretamente em uma das questões mais explosivas de todo o conflito israelense-palestino: quem possui soberania sobre Jerusalém Oriental?
O Reino Unido chegou a considerar uma retaliação pesada
Nos últimos dias, a crise quase escalou.
Londres avaliou expulsar diplomatas israelenses caso o governo Netanyahu levasse o fechamento adiante.
O conselheiro de Segurança Nacional britânico chegou a viajar discretamente a Israel para tentar encontrar uma solução antes do prazo desta quinta-feira.
Durante alguns dias, parecia possível uma troca de expulsões diplomáticas entre dois países que mantêm relações próximas há décadas.
Foi aí que apareceu a solução negociada.
Israel fechou o consulado. Mas não expulsou toda a missão
O acordo desta quinta é quase um exercício de diplomacia semântica.
Israel afirma que o Consulado-Geral britânico deixou de funcionar.
Segundo Gideon Sa’ar, o cônsul-geral e cerca de 20 diplomatas deixarão Israel.
Ao mesmo tempo, o governo israelense autorizou uma equipe reduzida, de no máximo sete diplomatas, a continuar trabalhando no mesmo prédio.
Londres resolveu chamar essa estrutura de UK Mission, Jerusalem.
O chanceler britânico Ed Miliband afirmou que o prédio não será fechado, que a missão permanece operacional e que continuará prestando serviços e desenvolvendo o trabalho britânico com o povo palestino.
O Reino Unido retirou temporariamente parte dos funcionários e de suas famílias por razões de segurança, mas diz que pretende reconstruir sua presença nos próximos meses.
Então quem venceu essa disputa?
Não existe uma resposta simples.
Israel conseguiu eliminar formalmente o status de Consulado-Geral e reduzir drasticamente a quantidade de diplomatas britânicos trabalhando no local.
Isso permite ao governo Netanyahu dizer que sua ordem foi cumprida.
Por outro lado, o Reino Unido não abandonou Jerusalém Oriental, não fechou o prédio e não subordinou aquela estrutura à Embaixada em Tel Aviv.
Isso permite a Londres afirmar que preservou aquilo que considerava essencial: uma presença britânica independente dedicada às relações com os palestinos.
É um compromisso diplomático construído para que nenhum dos dois lados precise anunciar uma capitulação.
Por enquanto, Londres não vai retaliar
Esse talvez seja o sinal mais importante de que os dois governos estão tentando impedir que a crise saia do controle.
O Reino Unido decidiu não expulsar diplomatas israelenses neste momento.
Miliband afirmou que Londres não adotará medidas recíprocas enquanto as negociações com Israel continuarem de maneira considerada séria e confiável.
Mas também deixou claro que as sanções anunciadas contra os assentamentos não serão retiradas.
Portanto, o problema que provocou toda a crise continua existindo.
E isso é muito maior do que uma placa retirada de um prédio
A disputa interessa porque reúne três conflitos diferentes ao mesmo tempo.
O primeiro é sobre os assentamentos israelenses na Cisjordânia.
O segundo é sobre a relação cada vez mais tensa entre Israel e alguns de seus antigos aliados europeus.
E o terceiro é sobre o próprio futuro de Jerusalém.
O Reino Unido considera que Jerusalém Oriental deve fazer parte da negociação para uma futura solução de dois Estados.
O governo Netanyahu rejeita a criação de um Estado palestino e considera Jerusalém sua capital indivisível.
Por isso, a presença de uma missão diplomática britânica independente naquela parte da cidade possui um significado que vai muito além dos serviços consulares.
É uma maneira física de Londres dizer que não reconhece Jerusalém Oriental como território soberano de Israel.
E é justamente por isso que Israel quis acabar com o consulado.
O acordo desta quinta evitou a ruptura.
Mas não resolveu a divergência.
A placa do Consulado-Geral britânico desapareceu.
Os britânicos, porém, continuam dentro do prédio.
E enquanto isso acontecer, a disputa sobre o que aquela presença representa continuará aberta.