Alcolumbre coloca a 6×1 em votação, mas é sua própria sobrevivência no Senado que também está em jogo

Política Real
Colunista
9 leitura mínima

Com a direita fortalecida pelas urnas e o PL articulando sua substituição em 2027, presidente do Senado mantém a aproximação com Lula e antecipa uma das principais bandeiras eleitorais do petista. A disputa presidencial passou a influenciar também o futuro de quem comanda o Congresso.

Davi Alcolumbre anunciou nesta sexta-feira (9) que colocará em votação, na próxima quarta-feira, a proposta de emenda à Constituição que acaba com a escala de trabalho 6×1. A decisão representa uma oportunidade política para Lula, que transformou a redução da jornada em uma das principais bandeiras de sua campanha. Mas existe uma história acontecendo nos bastidores do Senado que ajuda a compreender por que a movimentação de Alcolumbre ganhou tamanha importância justamente agora.

O presidente da Casa enfrenta uma ameaça concreta à sua permanência no cargo a partir de fevereiro de 2027. O resultado do primeiro turno fortaleceu a direita no Senado, ampliou o poder de negociação do PL e colocou em discussão algo que, até poucos meses atrás, parecia mais confortável para Alcolumbre: sua recondução à presidência do Legislativo.

A conta não é difícil de entender. O PL terá 28 senadores na próxima legislatura e contará com outros 11 parlamentares eleitos com apoio direto de Flávio Bolsonaro, embora esse alinhamento eleitoral não represente necessariamente compromisso em todas as votações. Para escolher o presidente do Senado, são necessários 41 votos. O grupo bolsonarista já discute alternativas como Rogério Marinho e Tereza Cristina, e a resistência à continuidade de Alcolumbre não começou nesta semana.

O senador acumulou desgastes com o bolsonarismo ao resistir à abertura de processos de impeachment contra ministros do Supremo Tribunal Federal, especialmente Alexandre de Moraes. Como o presidente do Senado exerce papel central na tramitação desses pedidos, sua permanência passou a ser considerada um obstáculo por setores da direita que pretendem levar o confronto com o STF a uma nova etapa.

Há uma ironia nessa situação. Alcolumbre foi eleito presidente do Senado em 2025 com apoio do próprio PL. Agora, enfrenta a possibilidade de perder justamente os votos que ajudaram a colocá-lo no comando da Casa.

A disputa presidencial acrescentou outra complicação. Flávio terminou o primeiro turno à frente de Lula, enquanto a federação União Brasil-PP, da qual faz parte o partido de Alcolumbre, decidiu apoiar o candidato bolsonarista. O presidente do Senado, porém, sinalizou a interlocutores que pretende preservar sua relação com Lula, mesmo mantendo canais de diálogo com o adversário.

Essa proximidade não surgiu depois da votação de domingo. Em agosto, após conversas com o presidente da República, Alcolumbre encaminhou à Comissão de Constituição e Justiça a PEC que acaba com a escala 6×1, até então parada em sua mesa. Em setembro, a proposta foi aprovada na comissão, sob relatoria de Omar Aziz. No dia 2 de outubro, antes do primeiro turno, o presidente do Senado já havia programado o início das discussões em plenário para esta semana.

Portanto, seria incorreto afirmar que Alcolumbre resolveu apoiar a pauta trabalhista apenas porque a direita cresceu nas urnas. O que mudou foi o peso político de sua decisão e a situação em que ele próprio se encontra.

Na prática, a PEC reduz a jornada máxima de 44 para 40 horas semanais, assegura dois dias de descanso e proíbe a redução salarial decorrente da mudança. O texto prevê uma transição gradual, começando com 42 horas depois de 60 dias e chegando às 40 horas um ano após a primeira redução.

A proposta já passou pela Câmara e precisa agora de pelo menos 49 votos favoráveis, em dois turnos, no Senado. A votação marcada para quarta-feira será apenas a primeira. O governo trabalha para conseguir um calendário especial que permita concluir a tramitação antes do segundo turno presidencial, marcado para 25 de outubro.

Essa diferença importa. Colocar uma matéria na pauta é uma decisão política relevante, mas não significa garantir sua aprovação.

O tema também coloca Flávio Bolsonaro diante de uma discussão que sua campanha preferia conduzir por outro caminho. O senador defende uma alternativa baseada em maior flexibilidade, com negociação de jornadas e remuneração por hora trabalhada. Rogério Marinho, coordenador de sua campanha, acusa Lula de utilizar a proposta com objetivos eleitorais.

Para o petista, a votação oferece uma oportunidade de recolocar o mundo do trabalho no centro da campanha, justamente quando Flávio procura dominar o debate sobre renovação, segurança e mudança de governo.

Mas o interesse político de Alcolumbre merece uma atenção particular. A permanência de Lula no Planalto significaria a continuidade de uma relação institucional que ele já conhece e na qual construiu alianças. Um governo de Flávio poderia representar uma mudança importante na correlação de forças, sobretudo se o PL mantiver a disposição de assumir o comando do Senado.

Isso não significa que uma vitória de Lula garantiria sua recondução. A direita continuará com uma bancada expressiva e a escolha dependerá de negociações entre partidos, independentemente do resultado presidencial. Tampouco está comprovada a versão de que Alcolumbre teria prometido fazer tudo o que fosse possível para reeleger Lula. O que se conhece são relatos de interlocutores sobre a intenção de preservar a aliança e os movimentos concretos de aproximação.

Existe ainda um elemento regional nessa equação. No Amapá, estado de Alcolumbre, o governador Clécio Luís, seu aliado, foi derrotado por Dr. Furlan no primeiro turno. O resultado representa outra mudança no ambiente político em que o presidente do Senado construiu parte de sua influência.

O cenário ajuda a compreender por que a discussão sobre a escala 6×1 não pode ser observada apenas como uma votação trabalhista. Ela envolve uma reivindicação antiga de milhões de brasileiros, uma das principais propostas eleitorais de Lula e um presidente do Senado que precisa reconstruir sua sustentação política para continuar no cargo.

Há interesses legítimos e interesses eleitorais coexistindo na mesma decisão. O fato de uma medida beneficiar trabalhadores não elimina seu valor político para quem a coloca em votação. Da mesma forma, os cálculos de Alcolumbre não tornam a discussão sobre a jornada menos importante.

O que acontece em Brasília é que a eleição presidencial começou a reorganizar também as disputas internas do Congresso. Partidos negociam apoios olhando para ministérios, bancadas calculam sua força e dirigentes procuram compreender como será a relação com o próximo presidente.

Nesse ambiente, Alcolumbre tem uma particularidade: sua eleição acontecerá em fevereiro, mas parte das condições para disputá-la está sendo definida agora.

A votação da próxima quarta-feira será um teste para o futuro da jornada de trabalho brasileira. Também mostrará até onde o presidente do Senado consegue reunir apoio para uma pauta defendida pelo governo, mesmo diante da resistência de setores que passaram a questionar sua permanência no comando da Casa.

Enquanto Lula e Flávio disputam a Presidência da República, Alcolumbre enfrenta uma eleição que ainda nem começou formalmente. E, para ele, o resultado de outubro poderá ter consequências muito além de quem ocupará o Palácio do Planalto: ajudará a definir com quais forças terá de negociar para continuar sentado na cadeira mais importante do Senado.

Compartilhe este artigo