A direita cresceu de forma histórica no Parlamento francês. No Brasil, o PL acaba de sair das urnas como maior partido da Câmara e do Senado. À primeira vista, parece uma mesma onda atravessando democracias ocidentais. Mas os Estados Unidos trazem uma surpresa: a menos de um mês das eleições legislativas, os dados atuais apontam uma dinâmica diferente. O fenômeno talvez não seja simplesmente uma guinada mundial à direita. Pode ser algo ainda mais profundo: eleitores usando o Legislativo para limitar quem ocupa o Executivo.
Existe uma coincidência difícil de ignorar.
Em 2024, Emmanuel Macron convocou eleições antecipadas na França depois de assistir ao avanço da direita de Marine Le Pen. O Rassemblement National terminou o primeiro turno legislativo com 29,26% dos votos e, ao final da eleição, conquistou 125 cadeiras. Somados seus aliados eleitorais, o campo chegou a 142 assentos. Nunca a direita nacionalista francesa havia alcançado uma representação parlamentar daquele tamanho.
Dois anos depois, o Brasil acaba de produzir sua própria transformação.
O PL elegeu 121 deputados federais, tornando-se a maior bancada da Câmara. A federação formada por PT, PCdoB e PV terá 88. No Senado, a mudança foi ainda mais expressiva: o PL passa de 15 para 28 senadores, a maior bancada partidária no início de uma legislatura desde a Constituição de 1988.
Enquanto Lula e Flávio Bolsonaro ainda disputam quem ocupará o Palácio do Planalto, uma parte fundamental da eleição já terminou.
Quem vencer encontrará um Congresso muito mais inclinado à direita do que aquele eleito quatro anos atrás.
E se Lula vencer, surge uma pergunta inevitável.
O Brasil poderia viver algo semelhante ao que aconteceu com Macron na França?
Primeiro, é preciso corrigir uma impressão sobre a França
Marine Le Pen não conquistou o Parlamento francês.
A história foi mais complexa.
Depois da vitória do Rassemblement National no primeiro turno, partidos de esquerda e candidatos ligados ao centro macronista fizeram retiradas estratégicas de candidaturas para evitar a divisão dos votos no segundo turno.
O resultado final entregou 178 cadeiras à união da esquerda, 150 ao campo presidencial de Macron e 125 ao RN, além de outros grupos. Ninguém alcançou as 289 cadeiras necessárias para uma maioria absoluta.
Portanto, a grande transformação francesa não foi simplesmente uma vitória da direita.
Foi a destruição de uma maioria governista estável.
Macron permaneceu presidente.
Mas o Parlamento tornou-se muito mais difícil de controlar.
Desde então, governar a França exige construir acordos diferentes para praticamente cada grande decisão, especialmente sobre orçamento, impostos e gastos públicos.
Em outubro de 2026, essa fragmentação continua produzindo efeitos. O governo francês tenta aprovar um orçamento para 2027 com dezenas de bilhões de euros em cortes enquanto enfrenta uma Assembleia profundamente dividida. A própria capacidade do país de produzir decisões fiscais consistentes passou a preocupar agências de classificação de risco e investidores.
É aqui que a comparação com o Brasil começa a ficar interessante.
Lula pode ganhar a Presidência e enfrentar um país legislativo diferente
Se Lula vencer Flávio Bolsonaro no segundo turno, não estará simplesmente iniciando um novo mandato com o mesmo ambiente político.
O eleitor terá produzido duas decisões simultâneas.
Uma seria manter Lula na Presidência.
A outra já está tomada: aumentar significativamente o peso da direita no Congresso.
O PL terá 121 dos 513 deputados.
No Senado, terá 28 das 81 cadeiras.
Atrás dele, aparecem outros partidos que não pertencem à esquerda, como União Brasil, PP, MDB, Republicanos, PSD e Novo, embora essas legendas não votem automaticamente em bloco e tenham posições diferentes dependendo do tema.
Isso significa que não existe uma maioria automática de 121 deputados capaz de controlar a Câmara.
Mas existe uma mudança evidente no ponto de partida das negociações.
E o Senado merece atenção especial.
Ministros do Supremo Tribunal Federal, diretores do Banco Central, procurador-geral da República e outras autoridades indicadas pelo presidente precisam passar pela aprovação dos senadores. A Constituição também entrega ao Congresso poder sobre orçamento, tributação, dívida pública, tratados e a possibilidade de derrubar vetos presidenciais.
Essa não é uma hipótese puramente teórica.
Em abril deste ano, o Senado rejeitou por 42 votos a 34 a indicação feita por Lula para uma cadeira no Supremo Tribunal Federal, algo que não acontecia havia mais de um século.
Antes mesmo da nova composição tomar posse, portanto, já existe uma demonstração de que Presidência e Congresso podem seguir direções diferentes.
Mas Brasil não é França
A comparação tem um limite institucional importante.
Na França, o primeiro-ministro e seu governo dependem da confiança da Assembleia Nacional.
Deputados podem aprovar uma moção de censura e derrubar o governo, obrigando o presidente a reorganizar sua administração.
No Brasil, não funciona dessa maneira.
O presidente possui mandato próprio e não perde o cargo simplesmente porque deixou de ter maioria parlamentar.
Um Congresso hostil pode bloquear projetos, alterar o orçamento, derrubar vetos, dificultar nomeações e impor derrotas políticas. Mas não substitui automaticamente o governo.
Por isso, um eventual quarto mandato de Lula diante de um Congresso mais conservador não seria uma reprodução da França.
Seria uma versão brasileira do mesmo problema fundamental.
O Executivo pode ganhar a eleição presidencial enquanto perde espaço político no Legislativo.
Talvez essa seja a verdadeira mudança que estamos vendo
É tentador olhar para França e Brasil e concluir que existe simplesmente uma grande onda mundial à direita.
Parte dessa leitura possui fundamento.
Partidos conservadores, nacionalistas e populistas de direita cresceram em vários países europeus. No Brasil, a eleição de 2026 produziu expansão significativa do PL na Câmara e principalmente no Senado.
Mas existe outra interpretação possível.
O eleitor pode estar separando cada vez mais seu voto para Executivo e Legislativo.
Em outras palavras, ele pode escolher um presidente por uma razão e um parlamentar por outra.
Isso cria democracias em que governos precisam negociar permanentemente com Parlamentos que não refletem necessariamente a mesma maioria política que elegeu o chefe do Executivo.
A França mostra a consequência extrema dessa fragmentação.
O Brasil pode estar caminhando para uma situação em que o Congresso terá ainda mais capacidade de definir o que qualquer presidente conseguirá transformar em legislação.
E então chegamos aos Estados Unidos.
Os americanos votam em 3 de novembro
As eleições legislativas americanas acontecem daqui a menos de um mês.
Todas as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes serão disputadas, assim como 35 vagas no Senado.
Hoje, os republicanos controlam o Senado com 53 cadeiras. Democratas possuem 45, além de dois independentes que votam normalmente com eles.
Donald Trump está na Casa Branca.
Portanto, caso o mesmo fenômeno observado no Brasil estivesse simplesmente atravessando o mundo como uma onda ideológica uniforme, seria razoável procurar sinais de uma nova expansão republicana.
Os dados disponíveis neste momento mostram justamente o contrário.
Neste momento, não existe sinal de uma “onda brasileira” nos Estados Unidos
Uma pesquisa nacional Reuters/Ipsos divulgada nesta semana encontrou 44% dos eleitores registrados inclinados aos democratas para o Congresso e 37% aos republicanos.
A aprovação de Donald Trump aparecia em 32%.
Nos distritos mais competitivos da Câmara, outra pesquisa realizada por duas empresas, uma ligada a estrategistas democratas e outra a republicanos, encontrou 49% para os democratas e 47% para os republicanos.
As avaliações do Cook Political Report, especializado em eleições americanas, também indicam neste momento mais dificuldade republicana na Câmara. Em 25 de setembro, sua análise colocava os democratas em posição de disputar a maioria e estimava um cenário potencial de ganho entre cinco e 15 cadeiras, embora ainda existam dezenas de disputas competitivas e quase um mês de campanha.
No Senado, o quadro é menos definido. Análises eleitorais apontam várias disputas extremamente apertadas e não permitem tratar o controle da Casa como decidido.
Portanto, com os dados disponíveis hoje, não existe base para projetar nos Estados Unidos uma vitória da direita equivalente àquela que o PL acabou de alcançar no Brasil.
A eleição ainda não aconteceu e o cenário pode mudar.
Mas o retrato atual é diferente.
E isso talvez revele o verdadeiro padrão
Se a França caminhou para um Parlamento mais difícil para Macron, o Brasil produziu um Congresso mais à direita enquanto ainda decide entre Lula e Flávio, e os Estados Unidos podem entregar dificuldades parlamentares justamente ao presidente republicano Donald Trump, talvez estejamos diante de algo mais sofisticado do que uma simples onda conservadora.
Talvez exista uma onda contra a concentração de poder.
Nos Estados Unidos, existe inclusive um padrão histórico que ajuda a compreender o fenômeno.
Desde meados do século XIX, mais de três quartos das mudanças de maioria partidária ocorridas na Câmara aconteceram em eleições de meio de mandato, aquelas realizadas quando o presidente não está na cédula.
É frequente que eleitores utilizem essas eleições para criar um contrapeso ao governo.
Isso aconteceu com presidentes republicanos.
Aconteceu com democratas.
Não é uma característica exclusiva de Trump.
O voto para presidente pode estar dizendo uma coisa. O voto para o Congresso, outra
Esse talvez seja o elemento mais interessante da eleição brasileira de 2026.
É perfeitamente possível que um eleitor tenha votado em Lula para presidente e em candidatos conservadores para deputado ou senador.
Também é possível que tenha escolhido Flávio e votado em candidatos de partidos mais centristas.
As urnas não produzem necessariamente um mandato ideológico uniforme.
Produzem diferentes maiorias para diferentes instituições.
E é justamente aí que mora a dificuldade de governar democracias cada vez mais fragmentadas.
Macron descobriu isso na França.
O próximo presidente brasileiro provavelmente terá de lidar com esse fenômeno a partir de fevereiro.
E Trump descobrirá em 3 de novembro se os americanos também decidiram colocar um Congresso politicamente diferente diante da Casa Branca.
Talvez não exista uma onda mundial da direita
Existe claramente um crescimento importante da direita em diversas democracias.
Mas França, Brasil e Estados Unidos mostram que o fenômeno não acontece da mesma forma em todos os lugares.
Na França, a direita cresceu enormemente, mas o resultado final foi um Parlamento sem maioria.
No Brasil, a direita teve uma expansão muito mais clara dentro do Congresso, especialmente com o PL.
Nos Estados Unidos, neste momento, pesquisas e análises eleitorais mostram o partido de direita tentando preservar maiorias que já possui, sob pressão de uma oposição democrata competitiva.
O elo entre os três países talvez esteja em outro lugar.
O eleitor moderno parece cada vez menos disposto a entregar todo o poder ao mesmo grupo político.
Pode escolher um presidente e depois limitar esse presidente pelo Parlamento.
Pode manter um governo e fortalecer sua oposição.
Pode votar à direita para o Legislativo e fazer uma escolha diferente para o Executivo.
E isso produz um fenômeno que talvez seja ainda mais importante do que descobrir se o mundo está indo para a direita ou para a esquerda.
Presidentes continuam ganhando eleições.
Mas estão descobrindo que ganhar a Presidência não significa necessariamente ganhar o poder.