Lula começou o segundo turno tentando mobilizar quem não votou. A lógica parece óbvia: mais de 33 milhões de brasileiros ficaram fora das urnas e a diferença para Flávio Bolsonaro foi de apenas 2,2 milhões. Mas o mapa da abstenção traz uma pergunta desconfortável para a estratégia petista. Os estados em que mais eleitores faltaram foram justamente alguns dos melhores territórios de Flávio. Então, afinal, quem perdeu mais com as cadeiras vazias?
Existe um terceiro número na eleição presidencial que pode ser mais importante do que os 47,03% de Flávio Bolsonaro e os 45,16% de Lula.
33,4 milhões.
Esse foi o número de brasileiros que não compareceram às urnas no primeiro turno. A abstenção chegou a 21,08% do eleitorado, o maior contingente absoluto já registrado numa eleição presidencial brasileira.
Para uma disputa em que apenas 2,2 milhões de votos separaram os dois primeiros colocados, é um universo gigantesco.
Não por acaso, Lula já começou o segundo turno falando diretamente sobre esse eleitor. Sua campanha colocou a redução da abstenção entre as prioridades para as próximas três semanas.
À primeira vista, parece uma reserva de votos esperando pelo presidente.
Mas quando o mapa da abstenção é colocado ao lado do mapa eleitoral, a história fica menos confortável.
Onde mais gente faltou, Flávio venceu
Os quatro estados com as maiores taxas de abstenção no primeiro turno foram:
Mato Grosso do Sul, 23,87%.
Rio de Janeiro, 23,32%.
Minas Gerais, aproximadamente 22,8%.
São Paulo, 22,54%.
Só esses quatro estados concentraram quase 15 milhões de eleitores ausentes.
Existe um detalhe relevante.
Flávio Bolsonaro venceu em todos eles.
Em São Paulo, recebeu 12,9 milhões de votos e terminou com 51,93% dos válidos, contra 38,20% de Lula. No Rio de Janeiro, ficou com 53,01%, contra 39,41%. Em Minas Gerais, a disputa foi mais apertada, mas Flávio também venceu, com 48,24%, diante de 43,33% de Lula. Em Mato Grosso do Sul, alcançou aproximadamente 59% dos votos válidos.
Isso produz uma pergunta absolutamente legítima.
E se parte importante das pessoas que ficaram em casa nesses estados tivesse ido votar?
A abstenção pode ter prejudicado Lula.
Mas pode também ter retirado votos potenciais de Flávio.
Só São Paulo deixou 7,7 milhões de pessoas em casa
São Paulo é o caso mais impressionante.
Aproximadamente 7,69 milhões de eleitores paulistas não votaram.
É mais de três vezes a vantagem nacional de Flávio sobre Lula.
E estamos falando de um estado no qual Flávio terminou o primeiro turno mais de 13 pontos percentuais à frente de Lula.
No Rio de Janeiro, outros 3 milhões ficaram fora.
Em Minas Gerais, 3,68 milhões.
Em Mato Grosso do Sul, aproximadamente 483 mil.
Somados, os quatro maiores índices de ausência aconteceram justamente em territórios que deram maioria a Flávio.
Visto apenas pela geografia, portanto, existe fundamento para perguntar se a abstenção também limitou a votação do candidato do PL.
Mas é aqui que precisamos tomar cuidado.
Não dá para transformar localização em voto
Saber onde alguém mora não permite saber em quem essa pessoa votaria.
A conclusão parece óbvia, mas muda completamente a análise.
Flávio venceu o Rio de Janeiro como estado.
Isso não significa que todo eleitor ausente no Rio fosse eleitor de Flávio.
Um exemplo mostra bem o problema.
Na Rocinha, onde a abstenção chegou a 26,86%, Lula recebeu aproximadamente 58% dos votos e Flávio, 32%. No Complexo da Maré, que registrou abstenção de 28,46%, Lula também venceu com mais de 53%.
Ou seja, dentro de um estado vencido por Flávio existem áreas de alta abstenção claramente mais favoráveis a Lula.
A mesma lógica pode ocorrer em sentido contrário em estados vencidos pelo presidente.
Por isso, a análise estadual revela uma pista.
Não revela o voto escondido.
E existe outro dado que favorece a hipótese de Lula
O perfil histórico de quem não comparece às urnas também precisa entrar nessa conta.
Dados de eleições anteriores mostram maior abstenção entre pessoas de menor escolaridade, jovens adultos e eleitores acima de 70 anos. Parte desse perfil, especialmente os segmentos de menor renda e escolaridade, tem apresentado historicamente maior apoio ao PT.
Esse é justamente um dos argumentos utilizados por quem considera que a abstenção prejudicou Lula.
Portanto, existem duas forças acontecendo ao mesmo tempo.
A geografia da abstenção aponta para estados em que Flávio foi forte.
O perfil social tradicional da abstenção contém grupos em que Lula costuma ter desempenho melhor.
É impossível resolver essa contradição sem dados específicos sobre os 33,4 milhões que não votaram em 2026.
E esses dados ainda não existem com precisão suficiente.
Mas existe uma conta que podemos fazer
Aqui aparece um teste interessante para a hipótese de que uma participação maior teria encerrado a eleição no primeiro turno.
Flávio recebeu 56.104.268 votos entre 125.272.513 votos válidos, terminando com 47,03%.
Suponha um cenário extremo.
Todos os 33,4 milhões de ausentes aparecem para votar e todos dão votos válidos para presidente.
Para Flávio ultrapassar 50% nesse universo ampliado, ele precisaria receber aproximadamente 23,25 milhões desses 33,4 milhões de novos votos.
Isso significa cerca de 69,5% dos abstencionistas.
É uma proporção muito elevada.
Para efeito de comparação, nem mesmo entre os eleitores que efetivamente votaram nos quatro estados de maior abstenção Flávio atingiu uma média próxima dessa dimensão. Seu melhor resultado entre esses quatro ficou ao redor de 59%, em Mato Grosso do Sul.
Portanto, os números não sustentam a afirmação de que, se os ausentes simplesmente tivessem comparecido, Flávio necessariamente teria vencido no primeiro turno.
Para isso acontecer, os abstencionistas precisariam ser muito mais favoráveis a ele do que o eleitorado que efetivamente compareceu.
É possível?
Matematicamente, sim.
Há evidência de que tenha sido assim?
Até agora, não.
Mas isso não torna a abstenção menos perigosa para Lula
O ponto realmente importante para o segundo turno é outro.
Lula não pode simplesmente olhar para 33 milhões de ausentes e tratá-los como uma reserva eleitoral própria.
São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Mato Grosso do Sul mostram por quê.
Os eleitores ausentes estão espalhados por territórios politicamente muito diferentes.
E os maiores bolsões estaduais de abstenção apareceram justamente em regiões onde Flávio mostrou força.
A campanha petista terá de encontrar quais abstencionistas pretende mobilizar.
Baixa renda?
Periferias metropolitanas?
Jovens?
Eleitores desmotivados que já votaram em Lula anteriormente?
Nordestinos que não compareceram?
A campanha de Flávio enfrentará exatamente a mesma pergunta.
Não basta dizer: “vamos fazer quem faltou votar”.
É preciso saber onde estão essas pessoas e por que ficaram em casa.
2022 mostra que gente pode voltar
Existe precedente recente.
No primeiro turno de 2022, a abstenção foi de 20,95%.
No segundo, caiu para 20,59%.
O número de eleitores que compareceram aumentou em aproximadamente 570 mil pessoas. Foi uma situação incomum, já que historicamente a tendência era o segundo turno registrar abstenção maior.
A polarização daquele segundo turno ajudou a produzir maior mobilização.
Em 2026, a disputa começa ainda mais apertada no primeiro turno.
E isso coloca os ausentes novamente no centro do jogo.
O verdadeiro campo de batalha não tem 33 milhões de votos garantidos para ninguém
Talvez seja esse o erro mais fácil de cometer depois de olhar para a abstenção.
Existem 33,4 milhões de brasileiros que não votaram.
Isso não significa que existam 33,4 milhões de votos disponíveis.
Parte não comparecerá novamente.
Parte votaria em Flávio.
Parte votaria em Lula.
Parte poderia votar branco ou nulo.
E parte pode sequer possuir preferência consolidada.
A única certeza é que o universo é gigantesco comparado à diferença entre os candidatos.
Flávio terminou 2,23 milhões de votos à frente de Lula.
Mais de 33 milhões ficaram em casa.
É por isso que a campanha de Lula olha para a abstenção e vê oportunidade.
Mas quando olha para o mapa, encontra um problema.
Os maiores índices de ausência ocorreram justamente em estados onde seu adversário venceu.
Isso não prova que a abstenção ajudou Lula.
Também não prova que prejudicou Lula.
Prova algo mais importante.
Ninguém sabe ainda de quem são esses 33 milhões.
E descobrir quais deles podem ser convencidos a sair de casa talvez seja uma das disputas mais importantes das próximas três semanas.